Desde antes do lançamento de seu disco de estreia, “Garatujas”, em 2023, a Tangolo Mangos já era uma banda mais dedicada a performances ao vivo que outra coisa. Após mais de 100 shows pelo Brasil e pela Europa nos últimos anos, o quinteto baiano ganhou experiência de estrada, ou melhor, muito tempo na estrada. E foi assim que o novo álbum pegou forma.

Ouça com exclusividade na Popload “Pedagios Y Caronas”, capa acima, o segundo disco de estúdio do grupo de Salvador, que chega nesta sexta-feira aos streamings pela Deck como um retrato das memórias e vivências cultivadas pela banda em suas jornadas “on the road”.
Em seu primeiro álbum, o grupo enfrentou um dilema curioso entre o fonograma e o palco. As músicas gravadas de forma mais caseira no álbum de estreia não transmitiam toda a energia que emanava das apresentações da Tangolo Mangos.
Quando tiveram a oportunidade de gravar esse segundo trabalho no Estúdio Ori, de Apu Tude, em Salvador, decidiram registrar as faixas tocando ao vivo.
Em termos melódicos, há uma predominância natural de ritmos nordestinos unidos às linhas de rock experimental e indie já presentes no primeiro disco. O que mais desponta na audição do novo trabalho são os elementos que o Tangolo Mangos foram absorvendo ao longo dos últimos anos. Pelo disco, aparecem referências de city pop japonês (mistureba sonora dos anos 70), funkadelic, drum n’ bass e algumas cositas más.
Independentemente de substantivos técnicos ou jargões do mercado, a Tangolo Mangos é uma banda de ritmos imparáveis e guitarras perspicazes a serviço de letras vulneráveis.
O disco abre com um riff que remete a animes, e a primeira faixa, “Armadilha Armadura”, já vinha sendo bastante tocada nos shows, a ponto de o público conhecer as letras e cantar junto. Fica claro que a banda abre mão de certo preciosismo técnico para traduzir a verve de suas músicas.
Na sequência, “Eu e Você (Skarência)” resgata algo que deveria ter ficado no passado: o ska, gênero que assolou a música brasileira no começo dos anos 2000. Mas abrimos uma exceção para os Mangos, que, com seu jeitinho baiano e um solo de guitarra bem esperto, fazem o ouvinte se esquecer desse detalhe em troca de uma faixa que acompanha o fervor do eu-lírico e suas vontades carnais. Realmente, não dava para essa música ser uma balada ou um shoegaze.
Na terceira faixa temos “Ohayo Saravá”, releitura de canção lançada pelo guitarrista Felipe Vaqueiro em seu projeto com a paulistana Sophia Chablau. Nesta versão do disco do Tangolo Mangos, a faixa ganha a energia maximalista típica do grupo e, especialmente, a presença infinita de Vaqueiro. O que mais chama atenção são os toques de percussão, os solos de guitarra mais elaborados e os sopros que surgem de surpresa, uma ótima surpresa. Está aí um bom exemplo de como transicionar uma música do projeto solo para a banda, ou vice-versa.
Como único single do disco, “Dominó” parece, numa primeira escuta, mais uma briga do que um jogo de bar. Mas aparentemente o dominó é coisa seríssima em Salvador, tanto que o eu-lírico passa a música remoendo os próprios erros na partida e provocando seus competidores. É uma escolha curiosa para apresentar o álbum ao público, justamente por soar tão diferente do restante, mas também é uma das inéditas mais elaboradas do trabalho.
Em “Sofá”, temos outra conhecida da galera: uma faixa divertida em que o baiano da letra enfrenta uma noite friorenta de São Paulo no sofá de uma amiga. Tudo começa com a desculpa de dividir os cobertores para se aquecer, mas as verdadeiras intenções logo ficam claras. Na gravação, o destaque vai para a percussão de palmas, que adiciona aquele teor de show ao vivo e deixa a faixa ainda mais pulsante.
“Açafrão” é a balada do disco e ganha a voz do baixista João Denovaro. Em uma calma atípica para a banda, a música funciona como um respiro, em que a delicadeza dos sopros de madeira e o solo de violão oferecem ao ouvinte um momento de romance mais clássico e maduro.
Na sequência aparecem “Gerais do Vieira” e “Gerais do Rio Preto”, duas músicas que remetem às raízes da Tangolo Mangos: mais psicodélicas, mais pulsantes e guiadas pelos riffs característicos da música nordestina. As faixas constroem uma atmosfera de “faroeste” baiano, com letras cinematográficas que traduzem parte das vivências da banda em turnê pelo país.
O disco se encerra com a dupla formada por “Lua de Fogo”, faixa que parece tranquila mas acelera aos poucos em um túnel de psicodelia e pensamentos cósmicos, e “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça”, música que começa com dedilhados espertos e ganha impulso nos pensamentos cíclicos de uma mente que não para de funcionar nem durante os sonhos.
“Pedagios Y Caronas” é o retrato de uma banda imparável, que segue acelerando e aproveitando toda oportunidade possível para fazer rock por aí. Ouça o disco abaixo.
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Confira abaixo as próximas datas da turnê da Tangolo Mangos com seu disco novo:
amanhã, dia 15 – Mogi das Cruzes – Overdrive
17/5 – Sorocaba – Lobofest
21/5 – Maringá – Espaço Solagasta
22/5 – Ponta Grossa – Frederico Cervejas & Cervejas
23/5 – Florianópolis – Desgosto
24/5 – Blumenau – Don Under Club
28/5 – São Paulo – Casa de Francisca
29/5 – Taubaté – Tilápia Fest
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* A capa de “Pedagios Y Caronas” é uma criação de Felipe Vaqueiro e João Antônio Dourado, sob fotografia original de Sérgio Amaral/Estadão Conteúdo.
** As fotos da chamada da home e deste post são de Giovanna Castellari.