Demorou. Mas quando aconteceu, aconteceu grande.

A primeira passagem de Bad Bunny (Benito, como será chamado daqui em diante) por terras brasileiras não teve clima de “vamos ver se dá certo”. Foram duas noites no Allianz Parque com cara de capítulo já escrito na história pop recente. Benito desembarcou em São Paulo no ponto mais alto da própria carreira, e o Brasil respondeu como quem já estava esperando na porta.
O público não era só brasileiro. Havia bandeiras de vários países da América Latina espalhadas pelo estádio. A sensação era menos “turnê internacional” e mais “festa entre povos latinos”. Um artista porto-riquenho, cantando em espanhol, lotando um estádio brasileiro com naturalidade absoluta. Se isso não redesenha o eixo do pop nas Américas, é difícil dizer o que redesenharia.
***
ATO 1 – A abertura
Antes mesmo de Benito pisar no palco, o telão já dava o recado. O vídeo de abertura mostrava dois jovens brasileiros interpretando um trecho de “La Mudanza”, faixa que inaugura o espetáculo. Pode parecer detalhe, mas ali estava a senha que abriria a noite. Isso tudo que estaria por vir também era sobre o Brasil. Sem importação cultural e com sintonia, Brasil e Benito já se reconhecem.
O primeiro ato mergulha diretamente na exaltação latina e Benito celebra de onde vem enquanto o set avança com faixas como “Pitorro de Coco”, “Weltita”, Baile Involvidable, Nuevayol. Em “Turista”, a surpresa veio da platéia: lanternas dos celulares cobertas por celofane verde e amarelo tingiram o estádio no primeiro dia. No segundo, vermelho e azul dominaram, desenhando a bandeira de Porto Rico no escuro.
Benito, muito emocionado, não se limitou ao protocolo. “Eu estou muito feliz. Realizei meu sonho de visitar o Brasil”, disse em português esforçado, mas sincero. Definitivamente não era frase ensaiada de turnê: havia um brilho específico no modo como ele olhava o estádio.

***
ATO 2 – A Casita
No momento em que o show se desloca para a “casita”, a casa cenográfica montada no meio da pista comum, o telão ganha vida com Sapo Concho, o mascote que representa um anfíbio ameaçado das florestas de Porto Rico e que aqui assume o papel de anfitrião bem-humorado.
Arrancou risos nos dois dias ao contar que se aventurou pela feijoada, pelo pão de queijo e pela moqueca, e que incluiu no roteiro cartões-postais como o Pão de Açúcar e as Cataratas do Iguaçu. Na segunda noite, “hablou” ainda mais direto com o público: depois de listar suas descobertas tropicais, emendou de surpresa o clássico do funk “Ela É do Tipo”, do Kevin O Chris.
Quando o “perreo” começa na casita, Benito reaparece com novo figurino, misturado aos convidados que ocupam o espaço mais disputado da turnê. No primeiro dia, como já era esperado, vestiu a camisa amarela da seleção brasileira. E no segundo, foi ainda mais longe: vestiu um casaco histórico usado por Pelé em 1966, uma autêntica peça de colecionador.
Em meio aos hits mais dançantes da sua carreira, como “Safaera”; “Yo Perreo Sola” e “Titi Me Preguntó”, também houve espaço para uma costura cultural. No primeiro dia, a banda de apoio “Los Pleneros de la Cresta” conduziu versões de “Garota de Ipanema” e “Mas Que Nada”, reposicionando bossa e samba dentro de uma engrenagem caribenha. No segundo dia, a porto-riquenha Rainao subiu ao palco para dividir com Benito seu feat “Perfumito Nuevo”, levando a química da gravação pro ao vivo para um estádio inteiro.
***
ATO 3 – Encerramento
De volta ao palco principal, usando um gorro de inverno que contrastava com o calor da noite paulistana e acompanhado por um corpo de balé, foi o momento de desacelerar o reggaeton e abrir espaço para canções mais lentas, como Ojitos Lindos, La Canción e Dákiti.
O ponto mais alto das duas noites veio com o hit que extrapolou o streaming e invadiu até blocos de Carnaval espalhados pelo país: “DtMF”. Em “Debí Tirar Más Fotos”, Benito fez um pedido direto: guardar o celular e viver o momento. Por alguns minutos, o Allianz deixou de ser um mar de telas e uma ironia bateu bonito: a música que fala sobre registrar mais memórias foi celebrada com menos câmeras e mais presença.
Copacabunny 2027? Que comece a campanha!
