Top 10 Gringo – Adivinha. Olivia Rodrigo emplaca mais uma em primeiro. The Linda Lindas chega queimando tudo. E a Starcrawler fecha o topo

Não poderia ser diferente. Olivia Rodrigo lidera a semana por bons motivos. Tanto que tentamos destrinchar um pouquinho o conceitual do disco novo dela, o over-assunto musical da vez. Tudo neste top dominado por mulheres, até que o Johnny Marr e o Steve Lacy aparecem.

Olivia Rodrigo fez em “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” um álbum conceitual. A dica está entregue na contracapa do disco, artigo em extinção com os streamings, mas exposto no Instagram da artista. A primeira metade é “Girl So In Love”. Olivia está apaixonada e escreve sobre o que rola no intervalo da idealização (“Drop Dead”) até a realidade do relacionamentos – os primeiros encontros, conhecer a família do carinha ( “u+me = <3”) e finalmente bater a sensação de que dois são um só (“Purple). A segunda metade é “You Seem Pretty Sad” e vai cuidar dos desencantos. Não por acaso, é a parte mais sofisticada musicalmente do trabalho. A descoberta de que o amor não cura tudo (“The Cure”), a insatisfação com a apatia do parceiro (“Begged”) e a exaustão provocada por um relacionamento que para de funcionar (“What’s Wrong with Me”). Os mais velhos vão dizer que a jovem de 23 anos contou até aqui a mesma história de sempre. E faz sentido, mas Olivia é bem mais resolvida e madura para a pouca idade do que a média dos sofredores pop do passado. Deve ser um traço geracional lidar melhor com os desconfortos da mente e do coração. É daí que sai o momento mais forte do álbum, esta delicadíssima “Less”, uma balada ao piano onde Olivia descreve os últimos dias do relacionamento. “Se me amar significa dizer ‘Amor, acho que é o fim’/ Acho que sim queria, queria, queria que você me amasse menos”, canta ao final com uma classe absurda respeitando o ar de standard da composição. Tá aí uma com potencial para durar anos. E aínda nem falamos do feat. luxoso de Robert Smith, a “What’s Wrong with Me”. Ou do parzinho de músicas que fecham o álbum e a história: “Expectations”, com seu ar de balada pós-término com Olivia afirmando que vai ser mais exigente com o próximo, e “Cigarrete Smoke”, de uma sinceridade absurda sobre as péssimas memórias que ficaram do ex, um “foi tarde” doloroso.  Construção é tudo!

Amadas por Oliva Rodrigo, a Linda Lindas, quarteto punk das jovens Bela, Eloise, Lucia e Mila, está de música nova. “Burning Out” descreve a situação de cansaço ao perder o sono durante as longas madrugadas desta vida, lembrando que elas ainda dividem a banda com os estudos. Punks e básicas ao extremo, as Linda Lindas incorporam aqui um toque de bateria eletrônica e um sintetizador que lembram, adivinha?, The Cure. Amadurecimento. O quarteto ainda não anunciou novo álbum, mas deve estar próximo. O segundo disco delas, “No Obligation”, foi lançado em 2024.  

Olha que arte perdida. Através de uma camiseta usada por uma das Linda Lindas lembramos de uma banda que tínhamos esquecido! É a Starcrawler, uma leitura gen z de eventos distintos de Los Angeles: o punk e a cena glam da cidade. É um Runaways encontra Motley Crue. A agressividade é atenuada por terem provavelmente crescido ouvindo Paramore e Foo Fighters, o que gera um “moderate rock” para rádios. Sem que isso a torne desinteressante.    

Nosso smith favorito voltou. Aliás, ele sempre está por aí e não costuma dar migué, sabe? “The Age of Everthing” será o quinto álbum solo de Johnny Marr e de acordo com o próprio foi construído de maneira catártica. O título, “A Era de Tudo”, que também pode ser lido como “O Envelhecimento de Tudo”, é a crônica do guitarrista para o mal-estar geracional: excesso de informação, falta de tempo, tecnologia massacrante. Mas, já no primeiro single, “Spin”, ele descreve também o outro lado desse problema: mesmo perdido diante de tanta coisa que chega a ele, esse deslocamento, confusão e perda vêm com a ciência de que se joga assim, faz parte. É saber aproveitar. Tirar um som de guitarra lindo como ele sempre tira faz parte ainda mais. Que timbre! 

“Oh yeah?” não é só o nome deste novo single mas também o aguardado terceiro disco solo do cantor e guitarrista americano, que junto com Dijon fazem o que está sendo chamado de “música maneira”. O álbum chega ao mundo no dia 17 de julho e o anúncio trouxe de carona a verdadeira nova música de trabalho do cara, que bota ordem na casa após o flerte inicial com as ótimas “The Feeling” e “Nice Shoes”, os dois primeiros singles. A julgar pelas primeiras amostras reais, Lacy continua o mestre absoluto em transformar crises existenciais e desilusões amorosas em R&B desacelerado de primeira linha. Esta canção-título ainda não foi lançada nos streamings, mas tem sido tocada em rádios gringas.

Garth Jennings, diretor da série de filmes “Sing” e de vídeo do Radiohead e do Vampire Weekend, cuidou das gravações de “Pulp: What Do You Do for an Encore?”, registro ao vivo de Jarvis Cocker e companhia em apresentações em Londres no ano passado. Os shows também vão virar um álbum batizado “Live!”. De acordo com Jarvis, o grito no título vale tanto para descrever o disco em si quanto um convite à plateia, fora o fato de que é no palco que as canções voltam à vida. Realmente, só ver como “Disco 2000” ao vivo pulsa diferente. 

“outta time” é mais um single lançado por Kelela nos preparativos para o seu “new avatar”. Com um ar de Prince, o recluso A.K. Paul, irmão do também discreto Jai Paul, aparece tocando uma guitarra maravilhosa – aguda, sutilmente deslocada do ar mais grave que preenche a canção. Aliás, canção que Kelela guardou por quase dez anos até surgir o contexto certo. Valeu a espera. 

Se o calor não é a sua, vai de Laura Misch. A cantora se alterna entre voz, saxofone e sintetizadores para criar um som minimalista e delicado. É daqueles de parar o tempo e trazer a paz do fundo da alma. Só reparar nos títulos das músicas apresentadas em “Lithic”, seu novo trabalho. São coisas como “Breathing”, “Echoes”, “Mitchi”. Sente no chão e respire fundo. Nada é para agora. 

E não é que o Mystery Jets ainda existe? A banda londrina que já foi mais badalada chega ao oitavo álbum com título e capa citando a obra “A Hole to See the Sky Through”, de Yoko Ono – aquela obra onde um cartão em branco tem um círculo perfurado no centro para observarmos o céu. A maturidade artística não chega sem dor: o novo single, esta “Soul River”, é dedicado a um amigo que cometeu suícidio, uma forma de celebrar e manter acesas às lembranças. 

Dale Crover talvez não seja tão conhecido quanto alguns amigos dele, mas enfim. Baterista do Melvins e parte da primeira encarnação do Nirvana, Dale é cheio de curiosidades. Uma delas é ter interpretado um jovem Neil Young no vídeo da música “Harvest Moon”, talvez um dos vídeos mais anos 1990 já feitos. Em novo EP solo, Dave, que semana que vem estará em São Paulo acompanhando o Redd Kross em show, resolveu juntar a doce música de Young com uma dos Melvins não tão delicada quanto. Deu liga.


***
* Na vinheta do Top 10, a onipresente Olivia Rodrigo.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix

Massarifest horizontal interna