Top 10 Gringo – Cada vez mais viva, a reclusa Mitski emplaca “Dead Woman” em primeiro. Falando em morte (…), Gorillaz vem atrás. E o chic Iron & Wine vai à tropicália em single novo. Temos!

Ainda é emocionante lembrar o show da Mitski no Primavera Sound brasileiro, em 2022. Uma artista ainda “desconhecida”, para quem se esperava um público morno, teve por aqui uma redenção, um encontro com um monte de apaixonados. E é assim pelo resto do mundo. É uma seita? Não, ela detesta o termo. Tanto que escreveu um disco sobre isolamento, enquanto segue sem revelar nadinha da sua vida pessoal. Será que no futuro mais artistas pop serão assim? 

MItski gosta de preservar sua vida pessoal. Recentemente, em uma entrevista para a “Vulture”, ao ser perguntada sobre o que tinha acontecido recentemente em sua vida, ela se limitou a dizer: “Muita coisa. Não vou dividir com vocês”. E ao contrário do que poderia acontecer seu séquito de fãs só aumenta, muitos com uma obsessão até perigosa. Talvez isso tenha alimentado o conceito de “Nothing’s about to Happen to Me”, álbum onde a personagem inventada por Mitski vive isolada em sua casa. Ao se fechar, muitos assuntos acabam por aparecer. Por exemplo, nesta “Dead Women” o relato sobre um ex inconformado com o término e capaz de tudo para sair vencedor de uma narrativa é dos textos mais firmes e apavorantes sobre a condição de ser mulher em um mundo dos homens, onde histórias de amor podem terminar em crime – um crime até pouco tempo totalmente aceito pela sociedade. Mitski informa toda essa dor com poucos versos e um simples “do-do-do-do, do-do-do-do-do”.

Composto entre viagens na Índia e a perda de entes queridos, o recém-lançado “The Mountain” parece ser o álbum mais consistente do Gorillaz em muito tempo. O conceito é falar de morte, transcendência e vida. E isso é contado de muitas formas pelas músicas, basta reparar nas participações especiais. Muitos colaboradores do Gorillaz aqui reaparecem depois de mortos a partir de gravações nunca usadas: Dennis Hooper, Tony Allen, Proof, Mark E. Smith. Parece que Damon Albarn e Jamie Hewlett resolveram desafiar os limites do tempo/espaço.

“Hen’s Teeth” significa dentes de galinha. Um título de álbum que o senhor Iron & Wine, aka Sam Beam, sempre quis usar. “Para mim, isso sugere o impossível. Dentes de galinha não existem. E foi essa a sensação que busquei com o disco: algo impossível, mas real”. Feito nas mesmas sessões do disco anterior, “Light Verse”, Sam tentou aproveitar um bom momento criativo coincidindo com um momento em que ele julga se sentir livre para escrever como quiser. Não tem mais o que provar para alguém. Entre as inspirações: Van Morrison, Simon & Garfunkel e tropicália. Tropicália naquela leitura bem gringa, né? Observe esta “Defiance, Ohio”.

Uma prova do sumiço de duas décadas do Gnarls Barkley é que nem seguíamos a banda no Spotify. Mas o duo formado por Danger Mouse e CeeLo Green retorna para encerrar as atividades em “Atlanta”, seu terceiro trabalho. A ideia é fechar um ciclo ao voltar para as memórias e locais onde eles cresceram, Atlanta e seus trens, onde passeavam e coletavam várias imagens. São essas imagens mentais que formam “Pictures”. 

Enquanto uns visitam Atlanta, o hot-chiper Alexis Taylor encara “Paris in the Spring”, nome do seu novo álbum solo, acompanhado de amigos como Air, Lola Kirke e Elizabeth Wight, do Pale Blue. Também aparecem os amigos chiques australianos do Avalanches para inserir uma base gospel e provocar Alexis a escrever um pouco sobre o amor que prescinde de palavras, o amor que está no ar, no olhar ou em pequenos gestos. Que belezura!

Nem só de psicodelia vive a Oceânia. Da Nova Zelândia, há muito tempo Aldous Harding faz seu indie folk de primeira. “Train on the Island” será seu quinto álbum de estúdio, mais uma parceria com o produtor John Parish, figurinha presente em trabalhos de PJ Harvey e Dry Cleaning. ““One Stop” chega com ela ao piano dividindo um encontro seu com John Cale e inseguranças sobre imaginação e sobre insegurança quanto a escrita. “Vou escrever sobre o que sei”, afirma ela tentando achar uma trilha segura. 

Outra artista folk que recentemente tinha os nobres serviços de John Parish é a californiana Jesca Hoop. Descoberta por Tom Waits e tendo trabalhando com Peter Gabriel, ela se mudou para o Reino Unido e não poderia soar mais inglesa. Uma Joni Mitchell do outro lado do Atlântico, se formos exagerar. Até porque ela soa folk, mas tem zero medo de mexer com outros gêneros.

O que o tempo pode fazer com uma banda de pós-hardcore? Deixar ela mais soft, sem querer ofender, lógico. É o que rolou com os ingleses do Basement, de volta após oito anos de silêncio. E eles estão amando: “É o tipo de som que sempre quisemos fazer”, andou afirmando o guitarrista Alex Henery. “Wired”, o nome do disco da faixa-título que pinçamos aqui, que traz um gatinho na capa, chega aos streamings e vinil no dia 8 de maio. 

Dizem os boatos que em breve teremos novidades de Sir. Paul McCartney. Mas o que é fato é a volta de Ringo Starr em mais um disco de influência country produzido por T Bone Burnett, um mestre do gênero. É a repetição da parceria de “Look Up”, lançado ano passado. A listinha de convidados para o disco inclui as ladies Sheryl Crow e St. Vincent.

Agora é qualquer disco de música pop sair que chovem as acusações de plágio. Zero novidade. Bruno Mars sempre foi cheio dos truques e muita coisa em “The Romantic” parecem vindas de outros lugares. Maneirismos, clichês, lugares-comuns, chame como quiser. O que mudou: “Bruninho” deixou de lado uma revisão esperta do R&B e soul norte-americano para passear por ritmos mais latinos, indo fundo nos modelos de canções românticas. Dez anos de espera foi tempo demais para o resultado.

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* Na vinheta do Top 10, a cantora nipo-americana Mitski.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix

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