Vish, que semana! Muitos peso pesados na lista, vários lançamentos de artistas consolidados, os novos também chegando com singles relevantes. O verão chegou mesmo para o pessoal do Hemisfério Norte.

Quando Kelela faz um disco com guitarras roqueiras, ela está voltando ao começo de sua carreira. Conhecida pelos trabalhos eletrônicos e de R&B, sua primeira aventura musical foi uma banda punk; seu primeiro gesto artístico, mas parte de um longo processo enfrentando as barreiras racistas que gêneros dominados por brancos têm – uma barreira hoje atenuada pelo amplo acesso digital, mas ainda mais fortes nos anos 1990, quando o conceito de “tribo musical” fazia sentido. “New Avatar” é uma nova persona artística e sonora, mas parte desse longo processo. Por isso que a conversa aqui chega avançada. As guitarras de Kelela não vão entregar rock básico reprocessado/retrô. Tudo circula em função de novas conexões com música experimental, eletrônica e ambiente, uma abordagem que lembra Prince ou Bowie mudando de face ao longo de suas carreiras. Já dá para imaginar uma retrospectiva documental da música no começo do século XXI chamando ela de “camaleônica”. É isso e muito mais.
Nate Amos, guitarrista incrível do incrível grupo indie americano Water from Your Eyes, vem com mais uma de seu lado B quaaase com cara já de lado A, o This Is Lorelei. Em setembro o Lorelei chega com disco novo, e esta viciante “Billy Came Back”, lançada há poucos dias, já entrega que vêm aí umas pérolas do folk-pop dessas de não cansar de ouvir repetidamente. Nate é um belo exemplo daquele indie que está abrindo a porta de seu quarto, onde vivia enfurnado com suas musiquinhas pessoais, para vir brilhar aqui fora.
Encontrar pedaços de melodias, harmonias e letras de antigos hits dos Stones dentro das novas músicas dos Stones não é uma novidade, afinal essa é uma característica comum de um grupo de blues. O duro é essa marca característica deixar o ouvinte apreensivo com as possibilidades tóxicas da IA em termos criativos. Calha de “Foreign Tongues”, o 25° álbum de estúdios deles, soar também como o trabalho mais intenso dos Stones em eras. De acordo com a banda, uma produção tocada em apenas um mês em ritmo industrial, bem diferente do anterior – “Hackney Diamonds” foi gravado em cinco países diferentes e ficou bem mais disperso em espírito. Aqui parece que estamos em um show dos Stones em termos de energia e até pelas semelhanças das músicas – é difícil não ouvir “Jealous Lover” e não imaginar que Mick está no palco cantando “Beast of Burden” ou algo de “Dead Flowers” em “Divine Intervention”. O estúdio e a produção podem fazer milagres, tirando um pouco do ar natural das gravações, mas voltamos a acreditar em alma quando ouvimos a bateria de “Hit Me in the Head”, uma base deixada por Charlie Watts – talvez só não mais charmosa por ter um volume surreal de alto graças à mixagem e à masterização, capazes de deixar tudo muito alto no álbum todo. Outro momento real é a versão de “You Know I’m No Good”, clássico de Amy Winehouse, talvez a compositora mais jovem já regravada por eles na hisstória. A versão tem os espaços silenciosos típicos dos Stones. Parece um ensaio. É bom demais ver os pés deles no chão.
A mesma história acontece no novo álbum do Jack White. Encontramos em “Frozen Charlotte” mais um disco dele lançado na encolha, riffs, melodias e ideias de diversas músicas antigas de Jack. A diferença gritante é o approach, digamos. Acompanhado da sua banda de palco (Dominic Davis no baixo, Bobby Emmett no órgão e Patrick Keeler na bateria), a luta criativa se dá em uma gravação rústica. Os sons soam mais ou menos como são ao vivo. Dá a impressão que sequer houve edição ou um mínimo cuidado da mixagem em privilegiar algum instrumento durante momentos da canção – é tudo reto. A secura é um jeito de avisar: estou aqui. Até por isso, escolhemos “You’ll Never Fix Me”. Título apropriado.
Através de uma postagem da amiga Zelda Hallman, Fiona Apple contou ao mundo sobre seu bloqueio criativo atual a partir da vontade de escrever sobre as coisas terríveis que estão rolando no mundo – avanço da extrema-direita, genocídio, direitos da mulheres sendo combatidos. “Eu só não quero decepcionar ninguém. Estou decepcionando a mim mesmo agora — sei disso — como artista”, explica a artista tentando dar uma vazão ao seu perfeccionismo nesta tarefa. Na mesma semana, apareceu uma inédita dela, esta “Horns of a Bull”, faixa da abertura de “Lucky”, nova minissérie da Apple+ com Anya Taylor-Joy – vimos dois episódios e a trilha ainda conta David Bowie, Roy Orbison, Suicidal Tendencies, entre outras coisas. É uma faixa curtinha sobre responsabilidade e poder. É pouquinho, mas é Fiona.
Espécie de “nova aposta” do indie britânico há alguns meses, até porque são de Manchester (lugarzinho onde sempre é necessário ficar de olho em novas bandas), o Westside Cowboy soltou no começo do mês esta belezura chamada “Pin Up Boys”. A faixa é o segundo single de “It Goes on”, o aguardadíssimo álbum de estreia do quarteto que chega às plataformas em agosto. “Pin Up Boys” surgiu batizada direto como “Hottest Track in the World” da Radio One, da BBC, então a coisa aqui é séria. Mas aqui nada de indie pop fofinho, claro. “Pin Up Boys” mistura violão com uma cozinha pesada e guitarras barulhentinhas, criando o que a imprensa musical britânica (sempre ela) está chamando de “britainicana”. Veremos onde isso vai dar.
Boa notícia para os fãs do Beck introspectivo. O homem se reuniu com a banda responsável por “Sea Change”, “Morning Phase” e “Mutations” para o seu novo trabalho, “Ride Lonesome”, faixa-título e primeiro single que já davam a dica. Com produção de Nigel Godrich, será o primeiro disco do Beck em sete anos. O novo single mantém a toada quieta, uma balada sobre a noite e seus mistérios e histórias.
O Queens of the Stone Age vem pela Easy Street que não é difícil de achar, sacou? Poderia ser uma baladinha do Roberto Carlos, mas é Josh Homme e companhia entregando a versão de estúdio de uma música que rolou nos shows da turnê semiacústica a partir do “Alive in the Catacombs”. Ou seja, uma musiquinha ao violão. Três acordes e nada mais. Disco novo ou saideira do projeto anterior? Vamos descobrir em breve.
Gostosinho ouvir um chamado do Dry Cleaning a olhar com calma para a vida: “Os sentimentos mudam/ acontece o tempo todo/ você não deveria se surpreender”. “I Have the Key” é aquilo que amamos neles; um som quase descompassado do que é declamado por Florence Shaw. A faixa é uma das inéditas da versão deluxe de “Secret Love”, terceiro álbum dos ingleses. Esses aqui são difíceis de errar.
As kids da Linda Lindas estão crescendo e escrevendo sobre como lidar com a passagem do tempo. “Closer” trata desse tema que elas classificaram como “emo” e por isso acharam uma tremenda honra contar com a participação de ninguém mais ninguém menos que Hayley Williams neste som. É uma troca justa: as Linda Lindas já participaram de um disco do Paramore regravando “The News”. O encontro estará em “Gotta Get Out”, terceiro álbum da banda, que chega no fim de agosto.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora Kelela, de novo.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.