O gostosinho de fazer um ranking de critérios tão subjetivos é subverter a lógica dos rankings, né? Primeiro que por aqui a ordem não importa tanto. Não estamos estabelecendo quem é o melhor. Se trata de um recorte do que temos de mais interessante, de quem estabelece diálogos que valem à pena. Talvez o que ordena a listinha, inclusive, seja mais o peso dessas ligações possíveis. É o que permite uma música de nove minutos ficar em primeiro lugar.

Em mais um passo de sua nova identidade artística, Lua Viana apresenta como Antropoceno o álbum “No Ritmo da Terra”, segunda parte de uma trilogia inspirada na obra de Ailton Krenak. Ao dialogar com a proposta de “Futuro Ancestral” de Aílton, basicamente a recuperação dos ensinamentos e práticas dos primeiros povos resistente ao projeto colonial ainda em curso, Lua inverte o caminho e toma dos colonizadores seus gêneros musicais para dar conta de um projeto para valorizar o que é nosso. Não só, mas em parte: é usar o post-rock, por exemplo, para rearticular canções do candomblé e da capoeira. Imaginar o fim do mundo? Que nada. Como Aílton Krenak diz, seu povo já viu o fim do mundo quando sua cultura foi dilacerada pelos colonizadores. Essa é a resposta. O futuro já passou.
Enquanto vive sua última turnê, o Sepultura fechará os trabalhos com um EP chamado “The Cloud of Unknowing”. “The Place” é o primeiro single e tem gente chamando de primeira balada da banda. Não faz qualquer sentido. Ela pode ser mais calminha, mais pop e talvez até mais prog do que o trash metal costumeiro, mas balada que não é. Até pela temática envolvida. Aqui o Sepultura resolveu falar de um assunto recorrente em sua discografia: território. “The Place” fala sobre quem procura abrigo em lugares que prometem liberdade, mas ao chegarem por lá se tornam suspeitos. O Sepultura explora a contradição recente dos EUA, um país construído por um processo de imigração violento, com sangue da guerra colonial responsável por matar os nativos. O personagem envolto na trama farsesca vai da indignação à fúria, por isso a música começa muito calma para os padrões do quarteto – quarteto em nova formação, com a estreia do baterista Greyson Nekrutman. Só dispensamos o vídeo da faixa, aparentemente feito com IA daquelas tenebrosas.
“Palavra de Amigo” é a EMOcionante faixa nova que encerra o Chocomonth, a ideia maluca de lançar uma música por semana durante fevereiro todinha, do álbum novo que sai agora em março. Conseguiram, garotos! Agora eles se preparam para a primeira +um Tour, um projetinho com um certo envolvimento nosso onde tocarão com Vitor Brauer em 14 datas pelo Brasil, Argentina e Uruguai. Depois em vôo solo, a turnê continua com datas até julho, correm o país passando pelo menos por umas dez capitais. Uau. Depois queremos saber as histórias de tanta estrada. Ah, e que single bom este do amigo, aqui.
E o mineirinho Vhoor segue mostrando a forte conexão entre house e funk em mais um single do seu próximo álbum solo. Se em “Bang Bang”, o papo era não ouvir love song, a MC Beatriz segue a tendência na provocação: “Deixa eu sarrar no seu pente”. Aí abre o debate, é ou não é uma baita love song?
Após uma temporada homenageando Alceu Valença através de releituras presentes no álbum “Carne de Caju”, a turma do Mombojó volta à trilha autoral seis anos depois do último disco de inéditas. A leve “É o Poder da Dança”, esta em destaque aqui, abre os caminhos da nova fase em sua mistura de cantiga e psicodelia. A banda conta ter começado se inspirando em Tincoãs, mas na hora de arranjar o caminho foi se tornando outro, em especial pelo timbre envenenado do teclado de Chiquinho. É esse tecladinho que não tem abandona mesmo depois que a música acaba.
Estrategicamente lançado na Quarta-Feira de Cinzas, “Boneca Russa” é o disco de Romulo Froes sobre o fim de um amor. Mas sua história pessoal é só um dos elementos que se encaixa nas perdas, saudade e vazios espalhados pelas letras do álbum. Ao escolher ter a voz escorada apenas pelo baixo de Marcelo Cabral, ambos produtores do disco, eles deixam no ouvinte também uma leve angústia pela falta do acompanhamento tradicional da canção brasileira. Tente ouvir “A Vida Que Já Era” sem imaginar um violão respondendo os versos ou um pandeiro ritmando e balançando a partir da segunda estrofe. A agonia aumenta ainda mais com a voz reverberada de Romulo sugerindo tantas possíveis harmonias. É um jeito encontrado de expor o exato e invisível instante onde o amor acaba. Ou melhor, acaba para recomeçar, já diria Paulo Mendes Campos.
Vale repetir: o “social” no nome do grupo Julieta Social não está ali por acaso. Rafael Bastos, João Durão e Rodrigo Mattos com diferentes line-ups fizeram um disco de estreia, recém-lançado, onde cada som soa como uma banda diferente da outra. É o multiverso das Julietas. Todas as Julietas possíveis. Nesta semana nos encantamos com “Cê La Vie”, outra música tristinha de “Julieta”, boa para aquecer qualquer fim de Carnaval.
Na pressa dos tempos atuais, muita música é casa feita com o desleixo dos dois primeiros porquinhos do conto infantil. Daí se nota de longe uma casinha bem construída, tijolos firmes, projeto bacana, que pára em pé. Apelemos aos porquinhos e suas casas porque “Casca” é uma reflexão sobre lar. Mais que isso: sobre sermos o nosso próprio lar: “Esteja onde estiver/ Minha casa sou”. Dueto e parceria firmeza de Marcelo Callado com o poeta Guilherme Lirio. Vai estar no próximo álbum solo de Callado.
Cocanha é uma dupla francesa formada por Caroline Dufau e Lila Fraysse que recupera canções tradicionais da Occitânia, região histórica onde hoje é o sul da França. Uma das missões delas é proteger a memória da língua occitana, uma língua românica antiga que foi sendo apagada pela força da imposição francesa. Ou seja, um projeto em perfeito diálogo com a ideia de “Brasiliano”, novo álbum de Lucas Santtana, onde o compositor quis exibir a vitalidade das línguas românicas, salvando o nosso português, por exemplo. “O brasiliano, o italiano, o occitano, o hauça, o francês… todas as línguas têm suas raízes… O bonito é ver como cada uma se transforma ao viajar pelos territórios através do tempo…”, escreveu Lucas em seu Instagram. Como definem de forma poética o trio: “Escuta tua língua, reconhece teu povo”.
Enquanto se prepara para os shows de despedida do álbum/fenômeno “Caju” fazendo show em estádios de futebol, Liniker soltou a versão de estúdio da inédita “Charme”, apresentada pela primeira vez no Tiny Desk Brasil. Talvez seja sua música mais pop até aqui. Pense na Marina Lima, no Lulu Santos e Gap Band. É disco, é pop, é muito radiofônica, enquanto a letra faz um relato encantado com charme da Ilha de Marajó, no Pará. “Charme” tem produção de Liniker, Fejuca e Nave. Estádio vai começar a ficar pequeno desse jeito. Praia de Copacabana tá aí.
11 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (3)
12 – Marina Lima – “Olívia” (3)
13 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (4)
14 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (4)
15 – Larissa Luz – “Marchona” (4)
16 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (4)
17 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (4)
18 – Rancore – “Eu Quero Viver” (4)
19 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (5)
20 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (5)
21 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (5)
22 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (5)
23 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (5)
24 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (6)
25 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (6)
26 – Thalin – “Salah Salah” (6)
27 – Letuce – “Baliza” (6)
28 – Ratos de Porão – “Direito de Fumar/Nós Somos a Turma” (6)
29 – Luiza Sonza – “Nós e o Mar” (6)
30 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (8)
31 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (8)
32 – Tuxe – “Nada a Pulso” (8)
33 – Parteum – “10, Talvez 9” (8)
34 – Don L – “Iminência Parda” (8)
35 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?” (8)
36 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado” (8)
37 – Tori – “Ilha Úmida” (8)
38 – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando” (8)
39 – Jadsa – “Big Bang” (8)
40 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo” (8)
41 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (8)
42 – Chico César – “Breu” (8)
43 – Clara Bicho – “Meu Quarto” (8)
44 – Nigéria Futebol Clube – “Preto Mídia” (8)
45 – BK – “Só Quero Ver” (8)
46 – Vera Fischer Era Clubber – “Lololove U” (8)
47 – Zé Ibarra – “Segredo” (8)
48 – Lupe de Lupe – “Vermelho (Seus Olhos Brilhando Violentamente Sob os Meus)” (8)
49 – Marabu – “Rubato” (8)
50 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (8)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, Lua Viana, a Antropoceno.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.