Top 50 da CENA – O grito do Marcelo Cabral. A volta da brasileira Anitta. E o funk suave, do Marabu. Que semana rica

Andando de skate e ouvindo o novo disco da Anitta. E depois ir direto para casa relaxar e ouvir a quebradeira do novo álbum do Marcelo Cabral. Ou o contrário? A semana recheada de lançamentos vem nesse clima cheio de opções. Um funk lentinho e malandro do Marabu, uma luz de Juliana Linhares ou um vôo com Buhr.  Riqueza de música essa brasileira.

“Ramal” não é a estreia na voz do baixista Marcelo Cabral, mas que voz, não? Por onde andou? Presença constante na cozinha dos seus favoritos (Criolo, Juçara Marçal, Sophia Chabalu & Felipe Vaqueiro, Rodrigo Campos, entre outros mil), aqui Cabral volta a tocar guitarra, seu primeiro instrumento. As canções apresentam riffs compostos no final da pandemia. Riffs de guitarra com gosto de rock, andar de jazz. Punk que frequenta samba. Skate à tarde, Pavement no walkman, show do Rumo depois. Dá para visualizar o presente, passado e futuro de Cabral. Entendemos seu pique ao notar a abertura para parceiros de todas as gerações: Sophia Chablau, Nefro Léo, Alice Coutinho, Douglas Germano, Fernando Catatau, Kiko Dinucci, Clima, Rodrigo Campos e Romulo Fróes.

“EQUILIBRIVM” é a volta de Anitta ao Brasil. Ao explorar a música brasileira e sua origem afro – indo do afro-samba de Baden e Vinicius até os Tincoãs – e se unir à produção esperta de nomes como Iuri Rio Branco, Papatinho e Carlos do Complexo, Anitta tem seu álbum mais sólido desde “Bang” (2015). Talvez depois de muito lutar para ser reconhecida lá fora, e pós-Bad Bunny, ela sentiu a firmeza de finalmente falar do Brasil a partir do Brasil. Falar daqui é mais fácil do que pôr em prática. Talvez tenha sido mesmo preciso fazer exatamente o oposto e ter lá sua “Girl from Rio” com uma visão norte-americana da bossa nova. O caminho agora é bem mais positivo. Tem também os defeitos de qualquer álbum pop de seu tempo. As músicas em outras línguas são dispensáveis, estão ali para o mercado externo. O mesmo vale para o excesso de feats., responsáveis por deixar Anitta em segundo plano por muito tempo. Ao emendar Marina Sena, Liniker, Luedji Luna e Melly, fica explícito demais onde Anitta foi beber. Precisávamos de mais uma versão da excelente “Várias Queixas” (aqui virou “Várias Quejas”)? Nessas, o disco anda no limite de parecer uma timeline, uma sequência de trends, o que estraga enquanto experiência. Já que é para ser um produto pop, é preciso iludir melhor. Madonna, Michael Jackson, Prince, mesmo Shakira, presente no álbum em “EQUILIBRIVM”. Nenhum deles deixa o mapa da mina de ouro em suas jóias.

Enquanto as pessoas estão na internet brigando para saber se o funk anda ou não colando com a machosfera de extrema-direita (e até mesmo brigando para saber se essa alegação faz sentido ou não), Marabu, MC e compositor do Capão Redondo, segue propondo caminhos novos para resolver a misoginia que ronda o gênero. “Manda Beijo” é mais um som “dimaloka”, bem do apaixonado, um funk suave da primeira escola; mas sem moralismo! Ou o som não seria dedicado a “todas as perigosas que seduzem por esporte”. A solução está no som.

A primeira aparição solo de Juliana Linhares foi em um som onde ela fala sobre um “Brasil a sós desde março”. Era o auge da pandemia. Daquelas coisas da vida, foi naquele período sombrio onde conhecemos o som suave, poderoso e luminoso dessa cantora, autora, diretora e atriz natalense. ““Até Cansar o Cansaço” será o segundo ato dessa jornada, álbum com 11 faixas entre autorais e releituras. O primeiro single vem justamente relembrar onde tudo começou e anunciar o novo. Agora estamos aqui, “Depois Do Breu”.

É de emocionar a busca descrita por Buhr em “Voaria”. Ancorada por um conjunto de metais, Buhr sobrevoa uma cidade deserta, um território consumido pelo dinheiro, desértico, abandonado pelas pessoas, mas ainda acreditando em encontrar as raízes de tudo. “Feixe de Fogo”, seu novo álbum, é esse disco em trânsito, na busca sábia de que o sentido é a busca em si. Sempre com disposição para derrubar a próxima fronteira, preconceito e imposição. 

Edgar sempre pareceu estar no futuro. Seu codinome avisava: Novíssimo Edgar. Acelerado, ele desacelera uma ideia antiga através do dub em “Zum Zum Zum”, uma releitura da sua antiga “Meus Velhos Dedos Amarelos”, som que circulou bastante via YouTube. Ao voltar ao passado, Edgar soa pouco nostálgico. Não é o que o passado era melhor. É que o passado poderia ter sido muito melhor e vale ser remexido, reavaliado, recomposto. Tratar uma velha ideia com carinho. Tanto que embora seu próximo álbum leve o nome de “Rewind”, ou seja, “Rebobinar” em português, não se trata de resgate. Edgar explica melhor: “É a possibilidade infinita de revisitar o trabalho e perceber que, em uma frase de letra antiga, mora um longa-metragem ou um livro a ser destrinchado. Pra mim, é o legado da obra. Como se eu enxergasse algo novo do antigo  que precisa ser apresentado pros novos vocês de ontem”.

Lembra quando o Silva deu uma detonada em geral na lógica do mercado da música brasileira? Sobrou de Paula Lavigne até Serginho Groisman. Chamado de sincericídio pela imprensa, Silva reclamava da cultura de apadrinhamento e de nostalgia. Pediu desculpas depois e virou sample em uma música do Rael (confira mais para baixo). Uma das declarações da qual se arrependeu depois era sobre virar um cantor “cantorzinho de MPB que faz musiquinhas para vocês ouvirem na Bahia”. Seu novo álbum, “Rolidei”, mostra alguma paz de espírito com fazer canções simples. Afinal, é um disco praieiro, litorâneo. Cabe na Bahia ou em um quintal com sol em São Paulo mesmo. Tá certo. Trabalhar com ódio é veneno. O problema não está em canções simples e leves, como esta bela “ROLIDEI”.

O trio formado por Lio, Lay e Jean tornou oficial o primeiríssimo lançamento da banda; um disquinho caseiro gravado antes da estreia oficial com “Pra Curar” em 2018. O EP autointitulado e vendido nos primeiros shows circulava só entre os fãs, links estranhos da internet e no YouTube. É a primeira vez dele nas plataformas e ajuda a entender como o talento, coragem e doçura do trio já estava lá desde o começo: mesmo com toda a poeirinha do lo-fi.

“Tá de volta/ Pesames pra quem não gosta”. Já começa assim a segunda vinda do Brime, o projeto que juntou Febem, Fleezus & CESRV e causou lá no distante 2020. Foi a trilha sonora da pandemia e causou estardalhaço e comoção com as apresentações ao vivo quando a vida voltou ao “normal”. O sucesso do projeto é um dos pontos discutidos no novo trabalho. Tanto as conquistas materiais quanto as culturais: por que o brime não pode ser M.P.B? É porque eles sabem que a sigla está atrelada a classe. Ao contrário do que diz o sample no começo da faixa, MPB não designa toda e qualquer produção ligada à música popular feita no Brasil. Febem chuta a porta da festa indo direto ao ponto: “MPB: Música Periférica Brasileira”. Pêsames pra quem não gosta.  

Discutindo também o cenário da música popular brasileira, mais exatamente da indústria da música brasileira, Rael abre “Nas Profundezas da Onda”, seu novo álbum, repercutindo o desabafo público de Silva sobre as dificuldades do cenário atual – muito retrô, pouco interessado em criatividade e mais ligado na influência e likes. “Já tão ligado que tá forçado/ Que esses cliques são comprado/ Que irado, quantos views você tem?”, rima Rael, que apresenta seu lado na discussão ao encarar um mercado que insiste em tentar colocar sua obra em alguma caixinha. “E o mercado me diz, me diz/ Que eu sou raiz do hip-hop/ Preto demais pra ser pop/ Que tá urban music”. O desejo de Rael parece ser seu desejo para geral: um pouco mais de liberdade. Menos tese, ppt, case. Mais canções, refrões e groove. O público cansado da mesmice quer algo fora da régua também.

11 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (2)  
12 – Vandal – “AH VERDADEH DAH CIDADEH” (2)
13 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (3)
14 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (3)  
15 – Schlop – “Clássicos” (3)
16 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (3)
17 – Ottopapi – “Meus Podres” (4)
18 – Ítallo França – “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” (4)
19 – Tiny Bear – “Mathpop” (4)
20 – Alice Caymmi – “Modinha para Gabriela” (4)
21 – Gabriel Leone – “Minhas Lágrimas” (5)
22 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (5)
23 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (5)
24 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (5)
25– Thalin – “Vagando” com Nina Maia (5)
26 – Giovani Cidreira – “Denga” (6)
27 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (6)
28 – Pedro Lanches – “Vergonha” (6)
28 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (7)
30 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (7)
31 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (7)
32 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (8)
33 – Julieta Social – “Cê La Vie” (8)
34 – Marcelo Callado – “Casca” (8)
35 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (9)
36 – Liniker – “Charme” (10)
37 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (11)
38 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (11)
39 – Larissa Luz – “Marchona” (11)
40 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (11)
41 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (12)  
42 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (13)
43 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (13)
44 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (13)
45 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (13)
46 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (13)
47 – Letuce – “Baliza” (13)
48 – Janine – “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (15)
49 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (15)
50 – Tuxe – “Nada a Pulso”  (15)

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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o músico Marcelo Cabral.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.

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