Arctic Monkeys e os 10 anos de uma certa revolução musical. Que até hoje está em curso!

>>

Screen shot 2015-10-23 at 5.00.07 PM
AM em sua primeira capa da NME, duas semanas após o lançamento do primeiro single

Já perdi a conta de quanta coisa legal faz “dez anos” em 2015. E olha que ainda teve os dez anos daqueeeele TIM Festival, comemorados ontem (aquele que trouxe ao Brasil um lineup “fraco”, com apenas: Wilco, Strokes, Arcade Fire, Kings of Leon entre outros).

Em 2005 também saiu o primeiro single da então quase que desconhecida banda de Sheffield que tinha quatro garotos espinhudos na formação e chamava Arctic Monkeys. Banda surgida pós-loucura Libertines, Strokes e White Stripes, quando a gente achava que a “salvação do rock” estava nas mãos dessa trinca que unia Julian Casablancas, Jack White e Pete Doherty. E daí, do nada (mesmo), aparecem esses moleques (mesmo) do interior da Inglaterra.

Hoje, lendo um texto do jornal britânico “The Guardian” sobre os 10 anos exatos do lançamento de “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, achei o título forçadíssimo. Ele diz, em tradução minha: “Como o single de estreia do Arctic Monkeys derrubou a indústria da música e ‘matou a NME'”.

Na matéria, a jornalista Laura Snapes fala com Conor McNicholas, editor da NME na época. McNicholas diz que a grande diferença da NME e de um jornal qualquer que cobrisse música era que a NME sabia do que estava falando. Ela sabia o valor (e as consequências) de bandas como Strokes e Libertines para a música. Até que chegou o Arctic Monkeys e atropelou todo mundo e deixou até a revista mais antenada da Inglaterra comendo poeira.

07727_102048_arcticmonkDC_04-1
Arctic Monkeys em 2005…

arctic-monkeys
… em em 2015.

>> Corta para a Popload.

Por achar essa chamada um pouco exagerada demais, fui buscar em nossos arquivos o primeiro texto meu sobre a banda, e destaco aqui o segundo, uma semana e meia depois do lançamento. Em 4 de novembro de 2005, o foco do texto, ainda no jornal “Folha de São Paulo” e em forma de coluna, era exatamente o mesmo: a bagunça virtual criada pelo Arctic Monkeys e onde isso iria parar.

Onde parou a gente meio que sabe, mas, na época, até MP3 eu tive que explicar o que era (lembrando que se tratava de uma coluna em jornal físico, desses de papel, lembram?). O texto começava assim:

“Toda semana tem um assunto novo sobre a revolução musical na era digital. Aí, na semana seguinte, o tal assunto novo fica velho porque um outro mais novo apareceu. Embarca aí, que eu vou contar a última, porque, até meu e-mail aparecer lá embaixo, já deve ser notícia com validade vencida. “MP3? Eu amo MP3! É com ele que eu posso encher meu iPod de músicas legais”, é o que acha o baterista do Arctic Monkeys, a banda-sensação da Inglaterra. MP3 é a música comprimida em arquivo, inventada por cientistas alemães em 1997. O Arctic Monkeys é grupo de quatro moleques amigos de escola de Sheffield, Inglaterra, que vem provocando programas de rádio e artigos de jornais na Europa, por causa desse negócio de MP3, internet e essas coisas que devem dar um nó na cabeça dos caras do Metallica, que mandaram prender o inventor do Napster sem saber que estavam dando um tiro no pé.”

“Esse negócio de MP3”, somado ao sucesso absurdo da banda dentro do MySpace (eu também explicava o que era isso na matéria – “um Orkut para quem gosta de música”), aos amigos que espalhavam os CDs da banda pela cidade e dentro de ônibus, subiam os arquivos nos blogs e fóruns de discussão… tudo isso fez quem com Alex Turner, da noite para o dia, assinasse com a gravadora indie Domino (que havia recém-lançado Franz Ferdinand). Ainda segundo o “Guardian”, logo no primeiro show dos AM no Reading Festival, todos os fãs sabiam cantar as músicas da banda. “E ninguém precisou fazer absolutamente nada”, lembra McNicholas.

O primeiro disco, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, lançado em 2006, bateu o recorde de vendas de um disco de estreia na Grã-Bretanha, perdendo o posto depois para Leona Lewis em 2007 e Susan Boyle em 2009.

Em meu texto, eu mencionava algo parecido (nas devidas proporções, obviamente) que acontecia por aqui:

“Enquanto isso, no Brasil, uma gravadora virtual, a Peligro, importa o tal single-bomba do Arctic Monkeys e passa a vender HOJE por aqui, a preço camarada estimado de R$ 12. Isso no mesmo período em que o Cansei de Ser Sexy, banda que se fez na internet, lança seu primeiro disco dando de bônus um CD virgem, para ser “queimado” com suas músicas e distribuído a amigos.”

Na verdade, 2005 não parecia tão longe assim e foram tantos os exemplos de “sucesso na web” depois disso (Lilly Allen seguiu a mesma receita, Mallu Magalhães também) que esquecemos quem liderou a onda. Mas foi o Arctic Monkeys, que, usando as palavras do Guardian, “provou na prática que oferecer música de graça não era suicídio”, muito pelo contrário.

Irônico pensar que exatamente dez anos depois (e mais de 60 depois de sua primeira edição), a NME também passou a ser de graça. Em 2005, eu concluía:

“Coisas que dá para saber: em 2004, cerca de 6 milhões de músicas “sofreram” download no mundo. Em 2005, até setembro, o número chegava a 7 milhões.
Coisas que não dá para saber: onde isso vai parar e quais serão as dimensões do impacto desta revolução musical, que ainda está em pleno curso.”

arctic_monkeys
“Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Continuo sem saber onde isso vai parar, mas eis onde estamos e onde eu também nunca imaginei estar: * aquele papel da NME (e incluo o da Popload aqui também) de descobrir banda novas e de bombá-las é agora de apps de música e de serviços como –quem diria– uma RÁDIO online como a Beats 1, da Apple. * O Spotify e outros serviços de streaming possibilitam que você ouça qualquer álbum a qualquer hora, de graça. * Nem resenhas, nem o crítico parecem importar mais: ninguém precisa disso para saber o que ouvir, de onde uma banda vem, quem é a próxima grande salvação da semana. * E agora ainda tem Facebook, Twitter, Snapchat, Instagram, Vimeo, Periscope… e inúmeras redes sociais que eu nem cheguei a conhecer e que espalham conteúdo organicamente ou não, musical ou não, mas que conseguem atingir milhões de pessoas simultaneamente. * Pensei nisso na quinta-feira passada. Estava no Audio Club vendo a passagem de som do Iggy Pop. O empresário dele, serião e de olho na galera, não permitia fotos e muito menos vídeos. Abordava todo mundo, um a um, pedindo que a equipe presente desligasse os celulares. Nem cinco minutos depois da passagem de som acabar, eu recebo no meu Whatsapp um vídeo da passagem de som que eu acabava de ver, vindo de um amigo de Minas Gerais. Dez anos depois, eu ainda me espanto com esse tipo de coisa. E não vejo a hora de voltar a este texto em 2025, juro.

>>