Billie Eilish chega aos cinemas (e na Apple TV). “The World’s a Little Blurry” entrou em cartaz no Brasil

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* Chegou à plataforma online “Apple TV+” e a alguns cinemas brasileiros o aguardado filme “Billie Eilish: The World’s a Little Bluerry”, o documentário sobre a curta carreira da curta de idade Billie Eilish, 19 anos, garota algo birrenta e esquisita (enfim, bem normal) que em 2015 não era ninguém (mesmo) até que o iluminado irmão um pouco mais velho postou uma música dela no SoundCloud e três anos depois ela já caminhava para ser a maior artista pop do mundo. E considere aí um pop bem estranho como ela, algo indie puxado para a eletrônica.

Billie Eilish, a gente aprende em seu filme em que reafirma que “o mundo é meio embaçado”, o seu mundo, odeia muito da vida musical que veio dos pais. Da mãe que a ensinou a compor. Do pai que a ensinou piano. Do dedicado irmão, Finneas, que a ensinou guitarra e a insistir e repetir e insistir e repetir até a música ficar boa. Ela odeia mas ao mesmo tempo ela ama tudo isso (enfim, bem normal). A família, a música (QUANDO PRONTA).. E hoje também em os fãs.

“Eu não penso neles como meus fãs. Eles não são meus fãs, são parte de mim. Eu tenho os mesmos problemas que eles”, diz no começo do documentário o meteoro adolescente, que cria seus vídeos a partir dos seus sonhos bizarros, sua relação com o cachorro e a aranha de estimação e dos resultados de sua síndrome de Tourette, um transtorno psiquiátrico que quando a ataca causa diversos tiques físicos e até vocal.

Já famosa a ponto de excursionar pela Europa, em um show Billie chega a dizer antes de uma música, para uma plateia cheia de menininhas com seus celulares ao alto e desesperadas em devoção, cantando tudo o que ela canta, ainda que a língua oficial não seja a mesma que a dela, que acha tudo aquilo muito estranho. “Não sou ninguém. Por que vocês gostam de mim?”. As fãs berram os gritinhos de encantamento. “É sério. Eu realmente não sei”, continua Billie, com um riso espontâneo que torna difícil não acreditar no que ela está dizendo.

Captura de Tela 2021-02-26 às 6.44.26 AM

Estamos falando de um documentário sobre a enoooooooorme (contém ironia) carreira uma artista de 19 anos que teve sua primeira música tocada em rádio aos 14, vivia numa casinha simples em Los Angeles e que, em pouco tempo, alcançou coisas de 60 bilhões de streamings de suas músicas, 76 milhões de seguidores no Instagram, 5.5 milhões de seguidores no Twitter e por aí vai.

Então, se você é um pouco familiar às canções e à pequena trajetória da menina que só tem um disco lançado e já tocou em cerimônia do Oscar, em palanque virtual de candidato vencedor à Presidência dos Estados Unidos e fez a música-tema do próximo filme de James Bond, você conhece bastante dessa história de “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry” porque praticamente a viveu. E nisso o filme impressiona.

Porque Billie é extremamente uma pessoa comum. Acredite nela. Não há o que mentir. Não tem tempo para isso. Nem saiu da adolescência ainda.

Ela nasceu em 2001, é de uma geração superfilmada por gadgets diversos desde bebê. Diante da câmera, tão natural para teens como ela, não precisa atuar. Precisa só ser ela. Por isso é um absurdo ver o quanto normal ela é e o quanto anormal ela conseguiu, mais rápido que outros fenômenos pop fulgurantes parecidos e de outras épocas, tipo Britney Spears. Porque o registro é honesto demais.

Aquela história boa de bastidor da vida que você espera de um documentário de um grande artista, com longo tempo de carreira, por exemplo de alguém colossal como Nina Simone ou Tina Turner, você tem de Billie Eilish sobre a paixão infantil dela pelo Justin Bieber, por exemplo. No que depois isso vai dar. E, na condução da trama, guardada as devidas proporções de dimensão histórica, tem praticamente o mesmo efeito seja qual for a biografia filmada. E o segredo, aqui em “Blurry” é a honestidade temporal de Billie Eilish.

“Eu não era fã do Justin Bieber”, disse Billie a dois veteranos de rádio numa entrevista curiosa dos DJs tarimbados com a menininha que tava fazendo sucesso. Os dois invariavelmente rindo de canto de boca. “Ele era meu namorado. Eu tinha 12 anos e para mim a gente tinha realmente um relacionamento. Ele era meu parceiro, a gente terminou. Tudo na minha cabeça. Depois da “separação”, eu ficava pensando como ia ser minha vida com meus próximos namorados depois de Bieber. E que eu não ia nunca mais viver com alguém o que eu “vivi” com ele. Eu tinha 12 anos e pensava seriamente em coisas como “Eu não sei lidar com isso.”

Para ilustrar esse depoimento maravilhoso (não pelo Justin Bieber, veja bem) ela fez o que ninguém da geração de Britney Spears ou Nina Simone pôde fazer. Mostrou em seu celular um vídeo dela aos 12 anos falando tudo isso que ela disse aos radialistas.

blurry

Por histórias assim é bem divertido ver “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry”, mais por esses primeiros passos adolescentes de fenômeno pop da menina problemática mais invejada do mundo hoje. De se descobrir como uma artista dentro de seu quarto, com seu irmão, até receber caras xis de gravadora ávidos por botar as mãos em seu álbum de estreia, feito ali mesmo, dentro de casa, no quarto bagunçado do irmão.

Depois que “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, o primeiro álbum, saiu em março de 2019, o que vemos via filme chega a ser trivial, ainda que bonito, ao retratar o roteiro de um artista ou banda quando o estrondoso sucesso chega e muda ainda mais a vida do felizardo ser humano amado pelo planeta. Ou “vítima” de uma superatenção que ele nem sabe ao certo se queria.

E é aí que “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry”, a partir de seu nome e da condução da história da menina que apenas acabou de fazer 19, carrega ainda mais na honestidade. Enquanto filme e sobre Billie.

Billie Eilish é o mais cintilante exemplo vivo musical do que acomete os adolescentes da era Instagram, Tik Tok, esses que nasceram de 2000 para cá. A treta da saúde mental, tão exposta hoje em dia na música, no nível do artista e no da adoração dos fãs que os segue e que realmente acredita que ele os representa. Depressão, melancolia, fraqueza emocional, tudo revestida de música, entregue hoje como nunca foi entregue antes. Escancarado. Na cara. E tudo bem se não está tudo bem.

Tem um trecho no meio do documentário de Billie em que ela está com a mãe num carro indo para algum lugar, ainda pré-álbum mas já com um absurdo sucesso e suas nuances e modificações da vida “normal”. E Billie indaga à mãe, do nada, sobre o sentimento de saudade, se os fãs sentem saudade dela, provavelmente depois que ela faz show e vai embora. Meio que duvidando a um certo ponto da relação de adoração de um fã com seu ídolo.

A mãe contempporiza com aqueles “papos de mãe” e tal. “Saudade dói, então o cérebro cria estratégias para lidar com isso…” blablablá, diz a mãe. Daí Billie vem: “Por que não podemos sentir saudade? Por que acobertar e fingir que não tem em vez de deixar acontecer?”. Mãe: “Porque dói”. Billie: “Que doa!”

Nessas Billie Eilish chega ao destino, que era uma rodada de entrevistas. Ela estava em Utah, EUA, e fala a uma rádio local. O documentário mostra ela conversando com um repórter: “As pessoas dizem que na minha música é tudo tão sombrio. Faça música alegre, me dizem. Mas eu nunca me sinto alegre. Por que compor sobre algo que não conheço? Sinto coisas sombrias com muita intensidade. Por que eu não abordaria isso na minha música?”.

O repórter: “Seus fãs parecem notar muito isso. Faz uns dias, entrevistamos uma banda adolescente daqui, que gosta de sua música como referência e num momento eles começaram a falar sobre você: “Se ouvir com cuidado, nas músicas da Billie Eilish dá para ouvi-la quase chorando”.” E continuou: “Você transmite isso a seus fãs. Você acha que seria esse o motivo de sua geração se identificar tanto com sua música?”.

Billie: “Ter uma canção que descreve exatamente como você se sente é a melhor sensação do mundo. Isso te reconforta. Faz você não se sentir sozinha, entende?”

“Billie Eilish: The World Is a Little Blurry” está em cartaz nos cinemas da rede UCI em cidades como São Paulo, Rio, Salvador, Salvador, Fortaleza, Ribeirão Preto, entre outras.

Teve pré-exibição na plataforma Apple TV+, da Apple, ontem à noite.

Um dos trailers do filme está aqui embaixo.

A três dias do lançamento do primeiro álbum de Billie Eilish, já um sucesso mundial aos 17 anos, o “namorado” da Billie Eilish de 12 anos, Justin Bieber, a procura se dizendo obcecado por ela. Finneas, que recebeu a mensagem, conta isso à irmã, que cai na gargalhada. “Ele se ofereceu para fazer um remix de ‘Bad Guy’ com você, mas sinceramente não interessa, porque você não precisa”, disse Finneas. “Só achei engraçado te contar.”

A história depois meio se sabe, meio não. Então veja o filme para ver o resultado disso, porque a partir daí o álbum vai sair, os programas de TV nos EUA vão disputá-la mais que o Justin Bieber, 40 marcas de roupas vão enviar produtos para ela querendo vesti-la para o show “trágico” do Coachella, a turnê de 37 países vai ser anunciada e os ingressos para os shows de lugares como Austrália e Nova Zelândia vão esgotar em cinco minutos.

Beleza para alguém que tem 17 anos, à época, e o mundo é um lugar meio embaçado. Ou nem assim é beleza, no caso de artistas desta geração de Billie Eilish?

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