
Com um surgimento na CENA que impressiona pelo refinamento (timbre único, arranjos sofisticados e composições capazes de transportar o ouvinte para uma tarde de um verão caloroso), chega a nós a cantora mineira Marina Liori, apresentando seu EP de estreia “Vontade Pura”.
Produzido por Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo, o trabalho de quatro canções acerta de cara pelo bom gosto. Há ali uma MPB contemporânea que não se contenta com o mínimo: metais alegres em “Suco de Fruta”, pianos e violões delicados em “Camaleão”, cordas que entram por todo o EP como se estivessem narrando o que a voz ainda não disse. E a voz de Marina é, de fato, o centro do disco: doce sem ser frágil, sensual sem esforço, com uma entrega que sugere alguém segura de quem é.

E nessa segurança, mora um desejo constante: pela vida, pelo outro, pela música. E é esse sentimento o fio que costura todas as músicas de “Vontade Pura”. Em vez de narrar grandes histórias de amor, Marina se interessa por aquilo que acontece antes – ou depois – delas. O frio na barriga do flerte, a expectativa de um encontro, a lembrança insistente de alguém, a paixão que permanece mesmo quando não encontra mais lugar para existir. É um disco sobre os sentimentos suspensos, aqueles que vivem mais da imaginação do que da realização.
Até quando aposta em uma sensualidade mais explícita, como no dueto “Água na Boca”, com a cantora sergipana Tori, Marina mantém a elegância como princípio. Em nenhum momento o EP soa ansioso para causar impacto. Sua força está justamente na confiança de quem sabe que uma boa melodia, uma interpretação convincente e um arranjo bem construído são suficientes para prender a atenção do ouvinte.

Além do bom gosto e da execução excelente, há também uma boa coesão no disco: as quatro faixas compartilham uma mesma temperatura, sem perder a personalidade e construindo um trabalho que convida a ser ouvido do começo ao fim. Em tempos de lançamentos pensados para funcionar isoladamente nas playlists, “Vontade Pura” recupera a ideia de um EP como experiência completa.
Marina Liori estreia sem a necessidade de provar muitas coisas ao mesmo tempo. Em vez de exibir diferentes versões de si, apresenta uma identidade artística já definida, sustentada por composições consistentes, uma produção forte e uma interpretação que faz parecer natural aquilo que, na prática, exige maturidade. Se este é apenas o primeiro capítulo, a sensação que fica é a de que Marina, de alguma maneira, já se encontrou como artista— e que vale a pena acompanhá-la de perto pelo que ainda está por vir.