E aí, ressaquinha do Brasilzão de ontem?
Futebol é pop e a gente sempre soube disso, mas desde que uma música do White Stripes transcendeu a categoria de música indie guitarrenta para ser o maior cântico de arquibancadas de futebol e música oficial de Copa do Mundo não víamos algo tão legal assim acontecer.

Nesta Copa de 2026, no épico jogo de ontem entre a Inglaterra e o local México no histórico estádio Azteca, com heróica vitória britânica, o genial capitão Harry Kane foi dar a famosa entrevista pós-jogo. Mas seu depoimento não durou muito, porque a voz dele não saía. No resto de alma e da garganta que sobrou dele ao final da partida em que marcou o gol da vitória contra os mexicanos (o do 3 a 2), Kane não podia falar mais nada porque minutos antes ele se esgoelou cantando “Wonderwall”, do Oasis, com os outros jogadores e a torcida inglesa para comemorar a batalha vencida, num uníssono de arrepiar ecoando pelo estádio Azteca.
“I don’t believe that anybody feels the way I do about you nooooooow.”
“Wonderwall”, dos irmãos Gallagher, virou o hino definitivo e inescapável da Inglaterra na Copa do Mundo de 2026. E foi por escolha dos jogadores britânicos. O clássico de 1995 do segundo álbum da banda atropelou os hinos tradicionais e virou a trilha sonora oficial do sonho britânico.
A Federação Inglesa até tentou emplacar “Sweet Caroline” e a manjada “Three Lions” (“Football’s Coming Home”) na playlist oficial entregue à FIFA (toda equipe escolhe suas trilhas sonoras. A da França, por exemplo, é “One More Time”, do Daft Punk).
Mas o futebol de verdade ignora planilhas de marketing. Acontece que a Inglaterra do técnico alemão Thomas Tuchel precisou jogar com 10 homens sob a altitude sufocante de mais de 2.000 metros da Cidade do México, aguentar um bombardeio insano no segundo tempo e ver Jude Bellingham jogar como se estivesse possuído para sair viva dali. Quando o juiz apitou o fim do sofrimento, o que ecoou das arquibancadas não foi o otimismo ensaiado dos anos 90, mas sim o hit da sobrevivência urbana do Oasis.
O bizarro é ver marmanjos com camisas retrô de 1966 e chapéus mexicanos dividindo as mesmas cordas vocais esfoladas com Harry Kane e companheiros em campo. Kane foi dar entrevista para a BBC Sport logo depois e simplesmente só conseguiu mandar um sussurro arranhado: “Eu estava cantando lá dentro… não consigo falar agora”. A cena viralizou tanto que Liam Gallagher, o próprio, foi ao X (antigo Twitter) dar o selo de aprovação mais autêntico possível: “Dá trabalho cantar isso, Harry Kane. Cmon ENGLAND cmon WONDERWALL”.
Existe algo profético e meio torto em “Wonderwall” que encaixa perfeitamente com o sofrimento histórico da seleção inglesa. A letra fala sobre um salvador, uma “parede de milagres” que ninguém sabe bem o que é, mas todo mundo precisa se agarrar para não cair. Para uma torcida calejada por traumas desde 1966, gritar “Because maybe you’re gonna be the one that saaaaaves me” no meio de um ensurdecedor estádio Azteca hostil, com 90% de mexicanos, vira um exorcismo pop impecável.
Porque foi exatamente no Azteca, em 1986, que a Inglaterra perdeu da Argentina e foi eliminada, depois que o genial Diego Maradona fez dois gols: um irregular, com a mão (“A Mão de Deus”) e o segundo uma das mais brilhantes jogadas da história das Copas, driblando uma série de jogadores ingleses, mais o goleiro.
Esqueça as canções oficiais da FIFA, Shakira etc. A música desta Copa é uma faixa de rock de Manchester lançada há 30 anos.
A imprensa britânica, sempre ela, simplesmente assumiu o “efeito Oasis” e o transformou em uma questão de estado cultural. O que começou como um momento despretensioso puxado por um DJ no Texas na estreia na Copa contra a Croácia virou pauta dos principais jornais do Reino Unido, entre os tabloides e os cadernos de esporte dos diários mais clássicos.
O “Guardian” fez até um texto com viés mais sociológico, descrevendo “Wonderwall” como uma “conexão emocional profunda” que finalmente uniu os jogadores multimilionários à classe trabalhadora que viajou até a América do Norte. Em suas colunas, o jornal destacou que, ao contrário dos hinos encomendados ou das músicas pop higienizadas, o clássico do Oasis carrega o romantismo melancólico perfeito para o torcedor inglês: uma mistura de desespero e fé inabalável. E isso tem movido o time.
Para o “bíblico” indie “NME”, Noel se mostrou bastante surpreso ao descobrir que a molecada mais nova da seleção realmente sabe a letra inteira da música. E disse que ouviu uma promessa do Liam de pegar um avião para cantar ao vivo no gramado da final caso o Tuchel consiga levar o time à decisão do título.
Maybeeeeeeeee…