A esta altura você já deve estar sabendo. A lendária banda inglesa New Order, ou agora o que restou dela (no momento e no caso o seu líder, Bernard Sumner), tem show marcado e anunciado para o dia 25 de novembro em São Paulo. Seria um dos últimos da história de um dos nomes mais importantes da música independente (não só) mundial, o que tornaria essa apresentação brasileira obrigatória?
Vem com a gente.

A gigante, influente e importantíssima banda de Manchester sempre foi não só cercada, mas até construída, por contradições.
Nas precisas estatísticas que apuramos por aqui, em cada 2863 textos falando sobre o grupo, 2862 começam relembrando que a banda “surgiu das cinzas” daquela sua mais que cultuada encarnação original, o que explica bastante sua histórica discografia, cheia de sons altamente dançantes e para cima (a ruptura), mas com vocais e boa parte das letras extremamente melancólicas (a herança).
Pode se dizer que o grupo é visto erroneamente por parte do público como uma versão mais pop (ou vendida) do Joy Division e ao mesmo tempo com a história repleta de comportamentos bem marrentos e totalmente na contramão das regras do mercado. E que pode ser muito mais associado ao punk do que a bandas de technopop ou synthpop, o que sempre causou discussões de tribos.
Synthpop, vá lá, é um rótulo que cabe bem ser associado ao New Order, mas as variações e os sempre bem presentes elementos orgânicos, com boas doses de muitas guitarras/baixo/bateria, são mais que suficientes para não deixar de ser “rock”, post punk, alternativo ou seja lá como quiserem (ou conseguirem) classificar.
As formações, as brigas, as relações conturbadas também com as gravadoras e a imprensa, as loucuras na época do extinto clube próprio Haçienda… Muito da história do grupo acaba sendo realmente bem complexa e bagunçada mesmo.
Isso desde os primeiros álbuns, como “Movement” (1981) e “Power, Corruption & Lies” (83), quando ainda carregavam muito da sonoridade de sua antiga e trágica banda, passando pelo terceiro, “Low Life” (85), o qual podemos dizer que, de certa forma, foi quando encontraram mais o seu som e ganharam mais personalidade com sua mescla equilibrada de rock + elementos eletrônicos (pop?). Até a icônica coletânea “Substance” (87), disco essencial e presente entre grande parte das listas de Top 10 Álbuns dos Anos 80, vai solidificando o som da banda, cada vez mais marcante e, por que não, popular.
Não tem como não dar destaque ainda para o surpreendente “Technique” (89) até o “Music Complete” (2016/2017), último de estúdio deles, incluindo sua edição com deliciosas versões estendidas e que não deve ser subestimado.
Não só de álbuns cheios históricos vive o New Order.
Donos do single de 12 polegadas mais vendido da história, “Blue Monday”, além de outros grandes hits supervendidos como os singles “Bizarre Love Triangle”, “Perfect Kiss” e “Regret”, a banda fez toda a indústria musical das grandes gravadoras reavaliar e reenquadrar o conceito de música independente na Inglaterra, quando os estudiosos profundos afirmam ter nascido o conceito “indie”.
Singles de “sucesso comercial” mais modestos mas não menos queridos como “True Faith”, “Round & Round”, “World (The Price of Love)” e “Shellshock” também estão nessa preciosa lista.
Tudo sem contar as (literalmente) dezenas de músicas que pouco ou nada importam por não terem sido necessariamente hits nas rádios, mas são tão verdadeiros hinos para quem sempre acompanhou os passos de Bernie e companhia, como “Ceremony”, “Temptation”, “Age of Consent”, “Love Vigilantes”, “Vanishing Point”, “Subculture”, entre tantos outros sublimes exemplos.
O catálogo disponível é maravilhoso e muito mais que justo e suficiente para fazer do New Order uma das bandas da vida de muita gente. O que nos leva ao contexto desse show brasileiro, anunciado hoje pela Balaclava Records, com realização da produtora Music On, para novembro, no Espaço Unimed. Tão controverso quanto sua históra toda, desde os anos 80 até novembro
Há poucos dias, o baterista Stephen Morris e a tecladista (em alguns momentos guitarrista) Gillian Gilbert, casados e membros de primeira ordem do grupo, revelaram um afastamento do New Order, por motivos de saúde de algum deles, o que não foi revelado.
Já sem o histórico baixista Peter Hook, que deixou o grupo com brigas em 2007, o vocalista Bernard Sumner vem acompanhado do guitarrista Phil Cunningham e do baixista Tom Chapman (que fazem parte do grupo desde 2001 e 2011 respectivamente) e possivelmente alguns outros músicos convidados e substitutos temporários para essa nova versão do New Order.

No post oficial do New Order da divulgação sobre o show em SP, a banda menciona tanto a primeira passagem por São Paulo em 1988, quanto a última, em Dezembro de 2018.
Esse pode ser olhado como um forte indicativo de que Bernard Sumner não está considerando como apenas como mais um show protocolar e “para cumrprir contrato” deles, depois da surpresa que foi o anúncio ainda nebuloso das saídas de Stephen (68 anos) e de Gillian (65) por tempo indeterminado das turnês.
Eles sabem o bem o peso e o que representa o nome New Order para a América Latina e para o Brasil. Não por acaso, o melhor livro escrito sobre os ingleses é justamente o “nosso” brasileiro, “All The Way”, de Luís Angelo Aracri e Ricardo Augusto Fernandes, lançado neste ano.
E, como a banda não vem ao país já há alguns bons anos, além do já mencionado desfalque de importantes membros, essa versão do New Order certamente tem plena noção que vem com algo significativamente a mais para provar.
Bernard Sumner, por um lado, pode nunca ter sido considerado tecnicamente como um grande vocalista, tanto por uma certa inconsistência quanto por sua “afinação” fora do estúdio, mas é justamente seu vocal meio desajustado e nada convencional que virou a marca da sonoridade da banda. Peter Hook, óbvio, era o lado mais rocker, energético e sem dúvida a peça-chave na história do grupo (além das já mencionadas e também importantes ausências de Gillian e Stephen), mas Bernard Sumner sempre foi a voz do New Order.
E todo esse caldo de controvérsias e “acidentes” desde antes de o New Order existir nos faz sentir que esse show em São Paulo em 25 de novembro pode ser o penúltimo da fantástica banda nos palcos, levando em consideração que o grupo está vindo à América Latina trazido pelo festival chileno Primavera Fauna, que ocorre três dias depois. Ou o último no Brasil.
Você ousa ficar de fora dessa?
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* Os ingressos para o show do New Order em SP já estão à venda, aqui.
* A banda de abertura já está anunciada. É a paranaense Jovens Ateus, perfeitamente escolhida por ser hoje em dia mais “pós-punk inglesa” que o próprio New Order.