Depois de 13 anos, nasce “Fear Inoculum”, o novo filho do complexo Tool

>>

300819_tool2

Quando uma banda passa 13 anos sem lançar material inédito, é natural que haja alguma expectativa em torno de um disco novo. Agora, quando se trata do Tool, a palavra “expectativa” parece pequena e inadequada ao expressar o sentimento dos fãs. Para quem acompanha o grupo há tempo suficiente, ver um disco novo dele finalmente se concretizar é uma mistura de ansiedade e desconfiança com toques de sadomasoquismo. Tudo isso porque, durante a última década, rumores de que o grupo lançaria material novo surgiram por diversas vezes, mas nunca foram muito adiante. Adicione a isso o fato de que a banda tinha, até agora, apenas 4 LPs de estúdio, em quase 30 anos de carreira. Pois “Fear Inoculum”, o aguardadíssimo quinto LP do Tool, está entre nós, e temos nossas impressões – na medida do possível para um disco de 80 minutos que foi recém-lançado.

Como a faixa-título indicou (e já destacamos aqui), o som do álbum todo é decididamente bem “Tool”, sem muitas surpresas. Isso é bom porque nenhuma outra banda no mundo soa exatamente como o Tool. Só eles conseguem fazer essa mistura sui generes de metal alternativo e rock progressivo, de maneira relativamente acessível, e é bem isso que os ouvintes terão em “Fear Inoculum”, por mais de uma hora – são 10 faixas, sendo 7 principais, e 3 de interlúdio.

Como sempre, o guitarrista Adam Jones orquestra riffs e solos fenomenais que seguem por minutos sem parecerem cansativos, e o baixista Justin Chancellor faz bases que conseguem mais do que meramente acompanhar o som. A polirritmia do baterista Danny Carey (sem dúvida um dos melhores do mundo) continua maravilhosamente complexa, e as letras do Maynard James Keenan continuam interessantes e abertas a interpretação. Qualquer uma das 7 músicas principais aqui preenchem os pré-requisitos mínimos para entrarem (e permanecerem) satisfatoriamente no catálogo do Tool, de maneira que é até difícil destacar uma – mas, por enquanto, gostamos mais de “Descending”.

O que muda? Dentre as tais 7 faixas, 6 passam de 10 minutos de duração, e com isso vem toda a complexidade que você pode imaginar. Por um lado, é mais difícil de digerir; por outro, é muito mais satisfatório quando você chega lá. É um dos raros casos em que a palavra “épico” realmente parece apropriada para descrever um som como um elogio.

300819_tool_slider

Nos trabalhos anteriores, músicas tão longas eram a exceção, não a regra, e sempre haviam singles como “Sober”, “Aenema”, “Schism” ou “Vicarious”, que ajudavam a atrair o ouvinte para uma segunda audição. Aqui, não há nada disso. Quer ouvir algo de “Fear Inoculum”? Separa tempo. E a faixa com menos de 10 minutos, “Chocolate Chip Trip”, não ajuda muito – é uma instrumental com solo de bateria.

Não estamos dizendo que é necessário um single com menos de 10 minutos para o disco dar certo, mas seria interessante ter algo mais imediato e visceral. Na ausência disso, o Tool merece crédito por passar o tempo que julgou necessário para compor “Fear Inoculum”, e por expandir cada música até soar praticamente irretocável. Aliás, merece ainda mais crédito por fazer isso em 2019, era dos serviços de streaming, em que consumir um álbum desse tamanho e complexidade exige um certo esforço do ouvinte – perante tantas outras escolhas mais fáceis que tem à sua disposição.

Em suma, “Fear Inoculum” é mais um disco incrível do Tool, mais do que o suficiente para agradar aos fãs, e quem sabe, com tanto hype, convencer uns céticos a experimentar algo diferente. No mínimo, com sua quantidade infindável de detalhes sonoros, o disco fará valer cada centavo daquele seu fone de ouvido / alto-falante caro. Não vai revolucionar o rock, mas tendo em vista o cenário atual do gênero, é um lançamento ímpar e merecedor de toda a atenção que vem recebendo, capaz de validar a espera imensa de mais de uma década.

>>