Atrasamos nesta semana? É que as noites foram longas por culpa de Madonna e o grandioso “Confessions 2”, um disco que pede replay e replay sem parar. O que dizer sobre um dos disco que não é só dos grandes lançamentos do ano, mas também uma das grandes provocações no pop em muito tempo? É o que discutimos neste top, que tem maaaais coisas boas para tratar.

Em geral, envelhecer é difícil. Não é só o corpo que cobra, mas o mundo, cada vez mais feito para os mais jovens. Esse processo de exclusão acontece também nas artes. Na música, sobrevivem alguns com as glórias do passado e pouquíssimos em condições de seguirem criando. Na música pop, então, envelhecer é inaceitável. Madonna lidou com o tempo a seu modo, talvez até por faltarem exemplos. Prince e Michael, seus pares mais próximos, já não estão por aqui. Os últimos 15 anos foram de sucesso relativo. Não tivemos um grande álbum ou sucesso indiscutível, mas tivemos um dos maiores shows da história: mais de 1 milhão de pessoas em Copacabana viram o encerramento de sua Celebration Tour. Qual poderia ser o próximo capítulo? Bom, ela chutou a bola que quicava há duas décadas: dar sequência a “Confessions on a Dancefloor”, um arrasa-quarteirões dançante, leve e pensando para as pistas – formatado como um DJ set. Em 2005, aquela altura já muito além da idade média do pop, Madonna se apresentou com “Hung Up” para as novas gerações. “Confessions II” concretiza uma proposta de liberdade sugerida já no começo do disco nos versos “Na pista de dança/ Eu me sinto tão livre”. Longe de querer acontecer em outras mídias ou focar em um marketing ultrapesado, o álbum é carregado pela vibe criada dentro de faixa e na relação entre elas, novamente um DJ set. Pouco mais de 1 hora de música em sequência que poderá nos acompanhar para sempre. Essa é a liberdade sugerida por Madonna aos jovens artistas. Simples. Prático. Parece um gesto óbvio ou fácil, mas é o passe dado só por craques.
Talvez uma das grandes qualidades da banda(?) nova-iorquina Chanel Beads, de Shane Lavers, é seu imenso dom de ser melancólica e dançante ao mesmo tempo. De ser um indie cult ao mesmo passo que tem um caráter pop, sem nunca entregar o jogo ou ser óbvia. Esta maravilhosa “Profane Break”, de seu recém-lançado segundo álbum (“Your Day Will Come”, é uma das faixas do disco que te pega pelo colarinho logo nos primeiros segundos. A canção avança em um clima de urgência meio gótica e meio pop de quarto, parecendo uma fita cassete esquecida nos anos 90 que foi encontrada por um algoritmo moderno. É música atmosférica para se ouvir no repeat absoluto, caminhando sem rumo pela cidade de madrugada. Chanel Beads é bem dessa linha Unknown Mortal Orchestra de ser: fragmentada, ansiosamente sofrida, viciante. Não é à toa que gente como Billie Eilish e Rosalía (também) caíram de amor pela banda.
Conheça Disgusting Sisters, duo anglo-francês formado por duas irmãs autodeclaradas “nojentas”: Julianna e Josephine Hopkins. Com álbum de estreia programado para outubro pela Source Records, responsável por Air e Phoenix, elas oferecem o electro perfeito enquanto aguardamos o novo da Charli XCX. O humor e a voz delas lembram muito também a Lily Allen desbocada e irônica do comecinho (ou de sempre, na real, né?). “Sorry Mister” é aquela patada nos chatos de plantão que perturbam mulheres, aquele tipo que acha que a mina está dando mole para ele só por existir.
E seguimos passeando pelos Andes com o duo sueco de raízes latinas Hermanos Gutiérrez. A paisagem apresentada em “Canto Andino” segue na percussiva “Los Ojos del Condor”, faixa-título do álbum previsto para setembro. Nas culturas andinas, o condor é o pássaro que liga o mundo terreno e mundo do céu, o mundo espiritual. Com essa música, os hermanos tentam (e conseguem) nos desligar por uns minutinhos do nosso mundinho cada vez mais besta.
Por falar em se desligar do mundinho que nos esmaga todo dia, a nova do Interpol traz Paul Banks “relaxando” no Central Park. O problema é que o cenário pacífico não acalma, só abre espaço para ele sentir a cidade cada vez mais robotizada engolindo sua paz. Não é uma Nova York deprimente, é uma Nova York que não te quer mais. “Entreguei nosso filho ao 1 e 0”, é o verso que traduz o arrependimento por ter se distraído da força política maléfica da tecnologia sem regulação. Caceta. É o melhor Interpol em muito tempo!
Se Nova York é de onde o Interpol enxerga os males do mundo, as meninas do Last Dinner Party encaram uma deprê parecida em Los Angeles, território de aura plástica e tomada por ególatras de todo tipo em suas jornadas pessoais para serem a pessoa mais famosa do mundo, um espaço impossível. “Você é só mais um pirado”, elas riem da pompa de alguém que se acha o próximo Tom Cruise, mas vai ter que se conformar com algum emprego horrível na Cidade dos Sonhos.
A voz de Aaron Maine, o senhor Porches, parece um amálgama muito bem feito em laboratório das vozes de Kurt Cobain e Julian Casablancas. Uma busca por aquela granulação de rasgar a garganta. Quando Aaron resolve fazer um lo-fi básico, então, o microfone abafado ressalta ainda mais esse lado fosco e bonito da sua voz. A gente nem precisa saber exatamente sobre o que ele está cantando para ficar meio comovido.
“All My Friends Are So Depressed” tem um tempinho já. Está em “I Used To Go To This Bar”, álbum lançado pelos norte-americanos do Joyce Manor no começo do ano. Mas apareceu para gente só agora e foi amor à primeira vista. Talvez nunca um grupo de pop punk com ascendência emo tenha chegado tão perto de um charme tão Smiths em seu som.
“Nimrods” é uma gíria norte-americana para “imbecis”. Também é o título da aventura do Green Day no cinema, batizando uma comédia sobre uma banda convidada para abrir um show (adivinha?) do Green Day – acontece que o convite é um trote. Inspirado nos primeiros dias de Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool, o trio de idiotas vai passar por “altas aventuras”, saca? Obviamente, a trilha sonora é encharcada de Green Day, incluindo a inédita “I’m Never Gonna R.I.P.”, uma espécie de “Jailhouse Rock” ligada no 220.
A galesa Bonnie Tyler é a mais recente grande perda do pop, ao morrer nesta semana em um hospital de Portugal com 75 anos, sendo que até poucos meses atrás ela estava em turnê. Não deve existir um ser humano, mesmo alguém da geração Tik Tok, que não conheça um de seus maiores sucessos, a catártica e brega e pop e dramática, mas sempre clássica, “Total Eclipse of the Heart”, talvez a música mais tocada em karaokês mundo afora na história. É um clássico absoluto que não envelhece um segundo sequer, feito sob medida para cantar gritando com os braços abertos na pista de qualquer festa indie que se digne. Com mais de quase sete minutos na sua versão original, a música é uma montanha-russa emocional que vai do sussurro desesperado ao refrão mais explosivo da história do cancioneiro mundial, pontuada pelo icônico backing vocal “Turn around, bright eyes” que gruda na mente para sempre. Bonnie Tyler, que tem até outra música que virou canção de arquibancada na Argentina, deixa com “Total Eclipse of the Heart” um importantíssimo e inesquecível legado pop.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora Madonna.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.