Top 50 da CENA – Gabriel Leone traz um Caetano meio indie em seu disco de estreia. Getúlio Abelha promove o encontro de funk paulista com o brega. E a Chococorn gera gentileza. O top da semana está bom demais

“Ator e cantor. Mais um?”. Foi com essa provocação que João Gordo fez Dado Dolabella surtar. O resto é história. Gabriel Leone não vai precisar sair na mão com ninguém. O trabalho na música do ator presente em “Agente Secreto” não é mais um. Ao mostrar interesse apaixonado por canções, revela sacar muito de lados Bs de grandes compositores. Não fosse seu bom gosto, não teríamos uma história tão boa para contar neste merecido primeiro lugar.   

“Desolação de Los Angeles,
a Baixa Califórnia e uns desertos ilhados

por um pacífico turvo…”

“Minhas Lágrimas” está na lista de músicas esquisitas de Caetano Veloso. Poucos versos, versos livres. Sem rima, sem solução. É um texto que parece lutar para se encaixar em alguma harmonia possível. Talvez seja a única música de Caetano da qual se tenha registro da ideia brotando em sua mente. No documentário “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein, ele fala sobre uma tristeza esquisita sentida durante uma viagem a Los Angeles, sentimento que só se resolveria em uma canção. Na época, Caetano estava separado de Paula Lavigne e começava a escrever as músicas que apareceriam no projeto “Cê”. “Minhas Lágrimas” é esquisita, mas tem texto cristalino. Em um aviãozinho de carpete horrível, sozinho, solteiro aos 60 anos, vendo a imensa Los Angeles; espelho da feiura do mundo – algo bateu mal em Caetano. “Nada serve de chão/ onde caiam minhas lágrimas”. E é este texto tão pessoal que o ator Gabriel Leone resolveu interpretar em seu recém-lançado álbum de estreia, onde a canção se torna também título do disco. Em suas idas a Hollywood, talvez ele também já tenha ficado sem chão para suas lágrimas naquele mesmo avião; embora qualquer um possa chorar com ele e Caetano. Em um disco onde Leone resolve reinterpretar compositores mais velhos (Djavan, Paulo Vanzolini, Guinga, Paulo César Pinheiro, entre outros), não deixa de ser curioso ele optar por uma versão meio indie do Caetano meio indie.     

Falar que Getúlio Abelha expande as possibilidades estéticas do forró parece exagero, mas em “Autópsia+”, seu novo trabalho, isso acontece, sim, e de formas diferentes. “Bricadeira do Ossinho”, por exemplo, conversa com o pop de uma Raye da vida, uma soma de 1+1, básico. Mas em uma faixa com “Zé Pinguelo” a equação é bem mais doida, já que o flow dele junta funk paulista com brega, a bateria começa indie rock, rola até um riff quase stoner lá na meiuca e do nada uma pausa que em segundos vai do jazz para um cair num break clássico de hip hop. Sério. Tudo misturado com tamanha fluidez que todos os rótulos ficam em cheque.

Por que uma música do Chococorn And the Sugarcanes teria aviso de “explícito”? Essa marca não costuma vir nem nas músicas mais baixarias do mundo, qual a razão vir em uma música chamada “Mais Gentil”? Tudo por conta de um “E que se foda” cantando entre os versos sentimentais do nossos emo caipiras. “Seja gentil com você ou por alguém”, eles pedem na música. É, talvez isso seja explícito nos dias de hoje. Aliás, a banda é tão gentil que soltou uma linha de merch do recém-lançado novo álbum, “Todos os Cães Merecem o Céu”, cuja renda vai toda para a ONG Patinhas Unidas. Procure saber: www.chococornbanda.com/

A improbabilidade do encontro Jonnata Doll e os Garotos Solventes com YMA é justamente o motor da primeira Residência RISCO, ideia de juntar nomes do selo para colocar artistas de universos diferentes para conversar. O resultado é Jonnata cantando em bases tranquilas e pop bem diferentes da pegada de “Matou a Mãe” ou a maioria das canções suas com os Garotos Solventes. A produção é de YMA e Loro Sujo, baixista dos Garotos. Prometido há anos, o disquinho pode indicar para onde vão os caminhos separados tanto de YMA quanto de Jonnata e companhia. 

Quem escuta “Vagando” do Thalin sem ter escutado “Amargo” de Nina Maia acha que o rapper encontrou algum samba antigo, uma raridade lá dos anos 1970, e aumentou a velocidade para gerar uma base moderna para os seus versos. Que nada. É Nina Maia chique (e acelerada) direto do seu álbum “Inteira”, lançado ano passado e em franco processo de descobrimento cada vez mais amplo do público – os shows estão aumentando o número de fãs rapidamente. De certa forma, Thalin achou mesmo uma raridade para fazer sua magia.

Após fazer sua festa na companhia de Ederaldo Gentil nas regravações de “Carnaval Eu Chego Lá”, Giovani Cidreira retorna ao trabalho autoral com a singela “Denga”, um single ao vivo e ao violão para abrir os trabalhos de seu próximo disco. A origem da composição, explica Giovani, veio “da vontade de encontrar um cantinho no mundo onde a gente possa simplesmente ficar… sem pressa”. É ouvir e querer encontrar junto com ele esse tal cantinho.

Dany Roland, baterista do Metrô nos anos 1980 e autor de muitas trilhas sonoras, e Pedro Sá, guitarrista de Caetano na banda Cê, já fizeram muitos trabalhos juntos. Entre produções para outros artistas e trilhas, “InCêndios” é o primeiro álbum do duo. E pega fogo, desculpa aí a redundância. Experimento elétrico/eletrônico, os dois nos jogam em mares de ruídos. Não chega a ser abstrato, pois os títulos e climas ajudam a identificar de onde as ideias partem e onde querem chegar. Se as faixas não formam canções, botam em cheque o conceito. Por que um punhadinho de ruído triste não é canção também?

O “sadboy” do Mato Grosso do Sul honrou com sua promessa. Acompanhado de uma turma formada por Pedro Zurma, Guido Almeida, Leonardo Sardela e Lucas Anderson, Pedro Lanches espalha sua melancolia por todo o seu recém-lançado EP “Sementes”. A belezinha do som é responsabilidade da mixagem e masterização da super Alejandra Luciani, metade do Carabobina. O resultado é bem superior ao álbum de estreia do projeto. Olho neles. 

3 de março de 2020. Escrevemos isso aqui neste mesmo Top 50: “A parceria dos rappers Febem e Fleezus em um EP com produção de CESRV deu jogo dos bons. Repleto de músicas que estão prontas para irem bem longe, ‘Terceiro Mundo’ é das que mais brilha ao citar Racionais, Marighella e ‘deixa os garoto brincar’ ”. De lá para cá, passamos até por uma pandemia, e agora seis anos depois vemos os garotos brincarem com as multidões no bem-sucedido Baile do Brime, que ganhou disco ao vivo na Audio. Mais do que um registro de uma apresentação, o álbum mostra versões expandidas das músicas, indo muito além do original. Vale sacar o que virou o projeto passado tanto tempo. 

Por falar em registro ao vivo na Audio, o Dead Fish acabou de lançar um disco no mesmo esquema. Porém, em vez de celebrar meia década de um projeto, eles comemoram VINTE anos de um disco histórico: “Zero e Um”. E eles fizeram tudo do jeito que os fãs gostam, tocaram o álbum de cabo a rabo, na ordem certinha e até convidando o ex-guitarrista Phill Fargnoli para dar uma força. Classe A. 

11 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (2)
12 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (2)
13 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (2)
14 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (3)
15 – Julieta Social – “Cê La Vie” (3)
16 – Marcelo Callado – “Casca” (3)
17 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (4)
18 – Liniker – “Charme” (5)
19 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (5)
20 – Marina Lima – “Olívia” (5)
21 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (6)
22 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (6)
23 – Larissa Luz – “Marchona” (6)
24 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (6)
25 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (6)
26 – Rancore – “Eu Quero Viver” (6)
27 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (7)  
28 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (7)
29 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (7)
30 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (7)
31 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (7)
32 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (8)
33 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (8)
34 – Letuce – “Baliza” (8)
35 – Ratos de Porão – “Direito de Fumar/Nós Somos a Turma” (8)
36 – Luiza Sonza – “Nós e o Mar” (8)
37 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (10)
38 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (10)
39 – Tuxe – “Nada a Pulso”  (10)
40 – Parteum – “10, Talvez 9”  (10)
41 – Don L – “Iminência Parda”  (10)
42 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?”  (10)
43 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado”  (10)
44 – Tori – “Ilha Úmida”  (10)
45  – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando”  (10)
46 – Jadsa – “Big Bang” (10)
47 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo”  (10)
48 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony)   (10)
49 – Chico César – “Breu” (10)
50 – Clara Bicho – “Meu Quarto” (10)

***
* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o cantor e ator Gabriel Leone.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.

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