SEMILOAD – E vem a Beyoncé e nos faz renascer (de novo)

Azar de quem escolheu hoje, ou esta semana, para lançar álbum novo, música nova. Porque nesta sexta-feira saiu disco da Beyoncé. O estupendo “Renaissance”, seu sétimo trabalho solo ou o primeiro disco solo propriamente dito depois de seis anos, literalmente nos derrubou da cadeira ao revisitar boa parte da house music, das batidas aos conceitos, atualizou uma pegada à disco music, e trouxe tudo isso ao pop. No estilo Beyoncé de chacoalhar nosso mundinho musical.

E, no estilo Dora Guerra de chacolhar nosso site com seus textos espertos, a moça da newsletter Semibreve, claro, vai dizer por que o “Renaissance” é essa maravilha toda apenas sugerindo que você aperte o play no álbum.

Como?

Hoje o assunto é ela, apenas ela: Beyoncé. 

Até para quem acompanha de perto a cultura pop, pode ser difícil explicar como ela chegou lá – como, meio de repente, Beyoncé chegou a um nível que não tem para ninguém. Ela é idolatrada por nossos ídolos, sejam eles aficionados do pop ou não. Está em um patamar acima. 

Mas por quê?

Ao longo do tempo, os infinitos projetos de Beyoncé acumularam feitos impressionantes, que sempre ultrapassaram números – mas sempre tiveram os números, também. Em sua carreira, Beyoncé amadureceu de forma elegantérrima, tirando o seu trabalho da esfera da música e do pop somente. Se dando a um luxo que poucos artistas podem (e menos ainda conseguem), Beyoncé faz o que quer; mas o que ela quer, no caso, coincidiu em uma reta ascendente que nunca viu uma queda.

Ela muda, de fato, a indústria. Seguem alguns exemplos:

I. É até doido pensar em “Single Ladies” agora. A forma com que aquilo explodiu no YouTube – um vídeo simples, minimalista, preto e branco, com três mulheres executando uma coreografia – é extremamente simbólico para tudo o que veio em seguida: as dancinhas do TikTok, a vontade de todo mundo de reproduzir uma coreografia, os dance practice videos de grupos de k-pop. Não foi a Beyoncé quem estreitou a relação entre dança de artista e público, mas “Single Ladies” tem uma relação clara com a consolidação do YouTube… E provavelmente tudo o que se sucedeu.

II. O icônico :”BEYONCÉ”, o tal “álbum autointitulado”, foi uma das coisas mais marcantes do pop do século 21. Para quem não sabe, esse foi o tal do disco-surpresa: lançado sem aviso prévio nem nada, sem estratégia de divulgação. Um dia, todo mundo acordou e se deparou com um novo álbum da Beyoncé, com um vídeo por música. Ao mesmo tempo que era ambicioso, era inovador – o tipo de coisa que só uma artista desse calibre conseguiria fazer (e que só teria essa dimensão uma vez).

Esse lançamento foi tão influente que, até 2013, álbuns novos eram lançados às terças-feiras nos EUA (isso desde os anos 80!). Era uma data entendida como funcional porque, assim, as gravadoras tinham o final de semana inteiro para distribuir os novos álbuns às lojas; nas segundas-feiras, as prateleiras seriam atualizadas.

Mas os usuários já preferiam ouvir músicas novas no fim de semana – e já estávamos na era digital. Quando Beyoncé lançou o seu disco em uma sextinha, ela provou que existia muito sucesso possível nessa data; e provocou uma reflexão em toda a indústria estadunidense, global, até.

Afinal, foi com o lançamento silencioso-mas-estrondoso desse disco que a indústria fonográfica como um todo se viu obrigada a rever suas datas, convencionando a sexta como uma data global: afinal de contas, não há por que lançar em datas diferentes em países diferentes (a não ser que você realmente QUEIRA que a pirataria role solta).

III. Em 2017, Beyoncé lança “Lemonade”, álbum que eu considero seu magnum opus. Mais um disco visual, o “Lemonade” foi impressionante em várias frentes: pela vulnerabilidade, pelo visual, pela política, pela pesquisa. Foi quando conhecemos Beyoncé como uma artista ambiciosa, coesa e conceitual.  Musicalmente, o “Lemonade” reforçou uma tendência do pop de se misturar com outros gêneros e se tornar uma entidade cada dia mais colaborativa, fugindo de uma sonoridade única: com acenos a Jack White, Ezra Koenig (Vampire Weekend), James Blake etc., o “Lemonade” não necessariamente inventou a roda, mas consagrou o melhor da música “mainstream” naquele momento, justamente por buscar fugir do mainstream. 

Desde então, foi marco atrás de marco. Em seu icônico show no Coachella, Bey aproveitou de uma oportunidade pra criar um espetáculo à parte, uma autocelebração que se reforçou com um filme na Netflix também extremamente bem-sucedido. Em “Black Is King”, o estrondo é aos nossos olhos, com a beleza avassaladora da África representada por Beyoncé. Incapaz de dar ponto sem nó, a artista nos deixa com uma expectativa eterna do inesperado-que-beira-a-perfeição, porque esse é o mundo artístico que ela construiu – inigualável, inquestionável, intocável.

Em tudo o que faz, Beyoncé encara seu trabalho como arte: cede mais à trajetória de sua própria vida e ao mundo que a cerca do que às novas tendências. Ela é uma íntima estudiosa do que a precede, se curvando a Fela Kuti, Sun Ra, Grace Jones, Donna Summer. No caminho para se tornar uma artista cada vez maior, ela busca honrar cada figura que pavimentou o caminho – explorando ao máximo a narrativa que conta, a proporção de suas performances e principalmente, a plataforma que tem. 

Beyoncé entende que, em cada projeto, ela pode fazer muito mais que o convencional, tendo somente a si mesma para superar. Não é só pela estética, pelos números, pelo sucesso. Beyoncé tem bandas formadas somente por mulheres negras; divide o holofote e as capas de álbuns com seus dançarinos, com figuras importantes de todas as épocas, sempre feminista, sempre orgulhosa de suas raízes negras. A mensagem dela nunca deixa de ser coerente.

E ela não precisava provar mais nada a ninguém. Mas segue provando, o tempo todo, incontestavelmente.

E, por isso, se você ainda não deu play no estonteante “Renaissance Act I”, que foi lançado hoje, para tudo e faz isso. Está na hora de ouvir.

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Dora Guerra aperta o play em tweets necessários no @goraduerra.

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