Artistas mais velhos olhando para o futuro, artistas mais novos se embriagando do passado. Pode ser um sinal dos tempos, do tamanho da esperança ou desesperança de cada um com o tempo que lhe resta, talvez. Nas duas fatias de história, músicas que são boas de se ouvir.

Cada single de “PLAY ME”, próximo solo da Kim Gordon, apontou para um lado. Apresentou seu lado mais roqueira, depois seu lado mais trapper e agora na faixa-título envereda por um hip hop clássico. Um curto recorte meio jazz com metais acompanhados por uma linha vigorosa de baixo se repetem para acompanhar os versos. Versos curtinhos. Recortes. “Rich popular girl/ Villain mode/ Jazz in the background”. Acaba de forma abrupta. E implora por um replay. Vamos ver como tantos pedaços diferentes ornam quando virarem álbum. Chega nesta sexta-feira.
Banda nobre da cena indie dinamarquesa, a Iceage lançou nesta semana a música “Star”, seu primeiro single em cinco anos. Do som à letra, a nova música é cool e tem tudo no lugar, como se fosse uma boa canção da cena inglesa dessas que estamos acostumados a ouvir desde sempre. Mas também tem bastante a cara do Iceage, o que para nós é o bastante. Falando na letra, ela vem na capa do single. “You’ve got me dying like a star”, grita bem gritado Elias Rønnefelt. Não vemos a hora de quando o disco novo, o sexto deles, chegar.
Quem chamar para dar um ar mais dark para uma batida tribal? Jehnny Beth pensou em Mike Patton, lógico. E assim se deu a parceria entre a francesa e o norte-americano. “Vou te ensinar a meditar/ e ganhar mais dinheiro, ganhar mais fama”, diz um dos versos da canção, uma porrada nos “vendedores modernos da verdade”, para ficar nas palavras de Jehnny. Para ela, no fundo, tudo que essa turma quer é um pouco da sua atenção. E da sua grana, lógico. Se você não ganhar nada com o promissor cursinho online do momento, eles já ganharam.
São muitas tags que amamos juntas: Grian do Fontaines D.C, Massive Attack e Peaky Blinders. Para dar um sentido na maçaroca: Grian fez um cover de “Angel”, do Massive Attack, para o longa-metragem de “Peaky Blinders: O Homem Imortal”. O filme chega à Netflix no dia 20 de março, mas a trilha sonora já está disponível e é digna de ser considerada um spoiler. No material, Grian ainda reaparece em duas canções do Fontaines D.C.: “A Hero’s Death” e “Romance”. Ah, outra do Massive Attack, “Teardrop”, também consta da lista. Perdeu o fôlego? Tudo para ficar imaginando o momento em que essas músicas aparecerão no longa.
É engraçado quando alguém deixa uma banda e seu trabalho solo reflete exatamente a porção que passou a faltar no antigo grupo. Não acontece sempre, porque a vida não é essa matemática toda, mas rola de vez em quando. E rolou aqui com o Rostam, ex-Vampire Weekend, em “Like a Spark”. Repara só. Ao misturar elementos de canção americana com a música persa, Rostam quer explorar suas raízes iranianas; seus pais deixaram o Irã poucos antes de Rostam nascer. “A primeira vez que combinei melodias microtonais do saz (parte de uma linhagem de instrumentos de cordas originários da Mesopotâmia) com acordes de guitarra ocidental, fiquei surpreso com a forma como os dois sons se harmonizavam Veremos mais disso em “American Stories”, seu próximo álbum, previsto para ser lançado em 15 de maio.
Se embebedar de passado pode dar ressaca (Greta Van Fleet) ou pode dar um baratinho bom (Amy Winehouse). A metáfora vale tanto aos artistas quanto a nós, ouvintes. Em diferentes graus, ambos temos responsabilidade – eles na produção, nós no consumo. A dosagem de retromania do Lemon Twigs é altíssima. Ao retomar os anos 60 com tal semelhança são capazes de passar batido como novidade em uma playlist de Beatles e Beach Boys para distraídos. Ao chegarem ao sexto álbum, “Look for Your Mind” com o single “I Just Can’t Get Over Losing You”, a dupla formada por Brian e Michael D’Addario’s continua fazendo valer o conselho “Beba com responsabilidade”; embora seja um conselho meio inútil se a bebida for, sei lá, álcool 70%.
Se o Harry Styles decepcionou um tanto com seu novo disco, seguimos com a expectativa alta para o do Fcukers. Embora talvez aconteça com o duo formado por Shanny Wise e Jackson Walker Lewis o mesmo problema que acontece com a Lemon Twigs. Não tá meio cedo para ressuscitar esse electrohouse anos 2000? Se anos 1960 foi ontem, o LCD Soundsystem aconteceu minutos atrás, pô.
Nada pior para um baterista do que ver sua banda com um baterista melhor. Ross Traver do Wavves aturou Travis Baker produzindo e tocando em duas faixas de “Spun”, álbum lançado ano passado. Baker reaparece agora na versão deluxe com mais uma faixa: a rapidinha “Bozo”. São só 40 segundos, mas a dinâmica é tão superior… Tem que estar com a terapia em dia.
Se até aqui o trabalho da Violet Grohl lembrava mais Courtney Love que o papai, “595” é o primeiro single dela com gostinho de Foo Fighters. Mas um Foo Fighters retrô, o Foo Fighters moleque, projetinho de garagem, antes de virar essa banda de arena. Mais Pyschedelic Furs que Led Zeppelin. Mais Hüsker Dü que AC/DC. “Be Sweet to Me”, seu primeiro álbum, chega no dia 29 de maio.
Estes dias para trás tentamos explicar a nova música country da Lana Del Rey como um country que não visita rodeios; vale o mesmo para a Kacey Musgraves e sua “Dry Spell”, embora talvez esse não seja o motivo pelo qual nunca mais veremos ela no Jaguariúna Rodeo Festival, por exemplo.
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* Na vinheta do Top 10, a musa Kim Gordon.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.