Álbum “The Queen Is Dead”, dos Smiths, faz 40 anos e continua mais vivo e “jovem” que metade do indie atual

Eu sabia que aquilo não ia dar (muito) certo. Nunca dá.

Os amigos do site parceiro Tenho Mais Discos Que Amigos me convidaram dia destes a falar quais eram os cinco discos que mudaram minha vida. O resultado foi assustador, para o meu tamanho e pela quantidade de gente que comentou/elogiou/protestou sobre minhas escolhas. Faz party!

Ainda bem que no começo do vídeo eu apareço dizendo se não podia ser 40 discos as citações, para ser justo comigo mesmo, mas o “desafio” era claro: tinha que ser cinco. Beleza! Fiz ainda o “disclaimer” que listas assim, pelo menos para mim, mudam a cada dia. A cada hora. Mas saiu o que saiu.

Naquele dia, naquele momento, os tais discos de Modern Lovers, LCD Soundsystem, Strokes, Nirvana e Racionais MC’s compunham a minha lista “definitiva”.

Dias depois eu viajo e na gringa, numa loja de jornais e revistas, dou de cara com a seguinte capa da revista britânica “Uncut”. E aí, na hora, me lembrei do meu vídeo do TMDQA. E minhas escolhas ficaram em check!

Dia 30 de junho de 1986. Margaret Thatcher no poder, Inglaterra cinza no clima e na alma, AIDS no noticiário e um tal de Morrissey resolvendo que o título do terceiro disco da banda The Smiths seria “The Queen Is Dead”. Provocação? Óbvio. Mas 40 anos depois, o que assusta é como esse disco envelheceu ao contrário: ficou mais jovem.

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Contexto primeiro, porque Popload sem contexto é só Instagram de frase.

Em 1986 o pop inglês tava dividido entre o synth meloso do duo Wham! (do grande George Michael) e o cabelo perfeitamente laqueado do Duran Duran. Aí quatro caras novinhos de Manchester mal-humorados aparecem com um disco que começa com a rainha morta na manchete e termina com Morrissey implorando “Please, please, please let me get what I want”.

No meio, o espetacular guitarrista Johnny Marr inventava riffs que pareciam melodias de igreja tocados de modo possuído numa de suas famosas Rickenbacker. Andy Rourke e Mike Joyce seguravam tudo com um groove que era claramente pós-punk, mas com molho dançante. Era literário sem ser chato. Era pop sem se comprometer.

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Por que esse disco ainda importa em 2026?

Porque “The Queen Is Dead” é o mapa estratégico de toda banda que você ama hoje e jura que é original. The 1975? Filhos diretos de “Bigmouth Strikes Again”. Fontaines D.C.? Netos de “The Boy with the Thorn in His Side”. Phoebe Bridgers chorando no palco? Ela só existe porque Morrissey chorou primeiro na colossal “I Know It’s Over”.

O disco tem dez faixas. Nenhuma encheção de linguiça. Z-E-R-O. “There Is a Light That Never Goes Out” virou hino de pista, de término, de Uber 3 da manhã. “Cemetry Gates” é Oscar Wilde encontrando o outro grande poeta inglês John Keats numa fila do SUS. “Frankly, Mr. Shankly” é a maior carta de demissão passivo-agressiva para seu chefe chato da história do rock. E “Vicar in a Tutu” prova que dá pra ser engraçado sem ser escroto — lição que metade do Twitter precisava aprender.

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Marr x Morrissey: a treta que moveu o mundo

Johnny Marr tinha 22 anos quando gravou esse disco. VINTE E DOIS. Os riffs de “Some Girls Are Bigger than Others” saíram de um cara que mal podia beber legalmente nos EUA. Enquanto isso Morrissey cuspia versos sobre celibato, monarquia e ônibus de dois andares com a mesma naturalidade e com uma beleza poética de impressionar Wilde e Keats. A tensão entre os dois é o motor do disco e o motor da banda. É Lennon/McCartney se ambos fossem esquisitos e usassem flores no bolso de trás.

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40 anos depois, o incômodo continua

Claro, falar de Morrissey em 2026 é queima-filme, dependendo da situação. O cara virou tio do zap que comenta política de modo tosco. Mas separar arte do artista aqui é exercício obrigatório. Porque “The Queen Is Dead” não é do Morrissey de hoje. É de quatro moleques do norte da Inglaterra que gravaram um disco perfeito antes de se odiarem para sempre.

Os Smiths acabaram um ano depois dessa obra-prima. Depois não teve turnê de reunião, não teve grande volta no Coachella, nem turnê de despedida no Allianz. Só ficaram esses 37 minutos desse disco em particular. E talvez seja por isso que o álbum não envelhece: ele morreu jovem, como manda o figurino do rock.

Bota para tocar hoje. Se você nunca ouviu, vai entender por que sua banda indie favorita soa derivativa. Se já ouviu 800 vezes, vai descobrir um verso novo em “Never Had No One Ever”. É isso que disco clássico faz: não deixa você sair ileso em nenhuma audição, no tempo que for.

“The Queen Is Dead” faz 40 anos. Vida longa à rainha morta e a minha lista morta dos cinco discos que mudaram a minha vida.

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* Nenhuma reedição comemorativa do “The Queen Is Dead” está anunciada para 2026. Pelo menos não que a gente teve notícia.

* Na falta da original, a famosa banda cover britânica The Smyths se apresenta em São Paulo no dia 8 de agosto, no Tokio Marine Hall, com a turnê que celebra o disco.

* Outra banda cover inglesa famosona, a These Smiths, se apresenta HOJE, dia 12, na Manchester deles, tocando o “The Queen Is Dead” faixa a faixa. O grupo está em corrente excursão pela Europa, fazendo tributo ao marcante disco. Ainda neste mês, a These Smiths faz show na Alemanha e Espanha.

* Em Massachusetts, na cidade universitária de Worcester, tem um MUSEU dedicado à banda de Morrissey e Marr. Chama The Smiths Museum e vai exibir a partir de 20 de junho a mostra The Queen Is Dead 40th Anniversary Exhibition, com mais de 250 itens originais da época, incluindo o pano de fundo original de 12 metros usado na turnê de 1986. Tá?



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